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Comprar casa em Portugal é um “grande desafio” para jovens e famílias

Subida dos preços das habitações, oferta insuficiente e rendimentos que não acompanham o mercado estão a dificultar o acesso à casa própria. Medidas destinadas aos jovens já apoiaram milhares de compradores, mas os organismos internacionais alertam para problemas estruturais no mercado habitacional. Comprar uma casa em Portugal tornou-se um desafio cada vez maior para jovens…

Comprar casa em Portugal é um “grande desafio” para jovens e famílias

Subida dos preços das habitações, oferta insuficiente e rendimentos que não acompanham o mercado estão a dificultar o acesso à casa própria. Medidas destinadas aos jovens já apoiaram milhares de compradores, mas os organismos internacionais alertam para problemas estruturais no mercado habitacional.

Comprar uma casa em Portugal tornou-se um desafio cada vez maior para jovens e famílias, num mercado marcado pela subida dos preços, pela escassez de oferta e por uma forte pressão sobre os rendimentos. Os dados mais recentes mostram que, apesar das medidas públicas destinadas a facilitar a compra da primeira habitação, o acesso à casa própria continua difícil para uma parte significativa da população.

Um dos indicadores mais recentes é o preço médio das casas anunciadas para venda. Segundo dados do Barómetro do Imovirtual citados pela Euronews, o valor médio nacional atingiu 430.500 euros em maio de 2026. O preço médio anunciado rondava os 3.693 euros por metro quadrado em março. Lisboa apresentava o valor mais elevado, com cerca de 5.796 euros por metro quadrado, seguida de Faro, com 4.804 euros, Madeira, com 4.333 euros, e Setúbal, perto dos 4.000 euros por metro quadrado.

A diferença regional é significativa. Nos distritos da Guarda, Bragança e Castelo Branco, os preços médios por metro quadrado situavam-se abaixo dos mil euros, segundo os dados citados pela Euronews.

Preços das casas continuam a subir

Os dados oficiais confirmam a pressão sobre o mercado. No primeiro trimestre de 2026, o Índice de Preços da Habitação do INE aumentou 17,8% em termos homólogos. O preço das habitações existentes subiu 19,7%, enquanto o das habitações novas aumentou 12,6%.

Ao mesmo tempo, foram transacionadas 37.745 habitações, menos 8,7% do que no mesmo período de 2025. Apesar da redução do número de transações, o valor global das vendas aumentou 3,2%, para aproximadamente 9,9 mil milhões de euros.

A evolução dos preços é particularmente relevante quando comparada com os rendimentos das famílias. Um relatório do Fundo Monetário Internacional, publicado em 2026, concluiu que os preços das casas em Portugal estavam, no final de 2025, 80% acima do nível de 2015, enquanto na área do euro o aumento tinha sido de 56% no mesmo período.

Jovens entre os mais afetados

A dificuldade em comprar casa afeta especialmente quem está a entrar no mercado imobiliário. A OCDE identifica os jovens como um dos grupos mais prejudicados pela atual situação habitacional portuguesa.

Segundo a organização, desde 2013 o crescimento dos preços das casas em Portugal ultrapassou o registado na maioria dos países da OCDE. Entre os fatores apontados estão a resposta lenta da construção ao aumento da procura, os obstáculos ao investimento, os custos de construção e um mercado de arrendamento pouco desenvolvido.

A organização salienta ainda que uma parte significativa dos jovens adultos continua a viver com os pais. A situação é relacionada com a dificuldade em encontrar habitação adequada a preços compatíveis com os rendimentos disponíveis.

O FMI chega a uma conclusão semelhante. O organismo considera que a acessibilidade da habitação se deteriorou significativamente e aponta que os jovens e os agregados com menores rendimentos estão entre os grupos mais expostos à pressão dos custos habitacionais.

Comprar exige cada vez mais esforço financeiro

A pressão não se limita ao valor absoluto das casas. É também necessário ter em conta a relação entre o preço do imóvel e o rendimento das famílias.

Dados divulgados pelo idealista relativos ao segundo trimestre de 2026 indicam que a compra de uma casa representava, em média, uma taxa de esforço de 76% do rendimento familiar em Portugal. No arrendamento, a taxa de esforço calculada pelo portal chegava aos 82%. Lisboa, Funchal e Faro estavam entre os mercados com maior pressão sobre os rendimentos.

Estes indicadores ajudam a explicar por que motivo muitos jovens, mesmo tendo rendimentos estáveis, encontram dificuldades em reunir a entrada necessária para comprar uma habitação e suportar posteriormente os encargos associados ao crédito.

Governo criou apoios para jovens

Perante o problema, foram criadas medidas específicas para facilitar o acesso dos jovens à primeira casa.

Entre elas está a isenção total ou parcial de IMT e Imposto do Selo para jovens até aos 35 anos que comprem a primeira habitação própria e permanente, dentro dos limites previstos na legislação.

Segundo dados divulgados pelo Governo em agosto, mais de 112 mil jovens já tinham beneficiado destas isenções até ao final de junho de 2026. O valor médio das transações abrangidas rondava os 208 mil euros e o benefício fiscal médio situava-se nos 6.500 euros por imóvel.

Existe também uma garantia pública destinada a facilitar o acesso ao crédito. Até junho, tinham sido celebrados mais de 40 mil contratos de crédito à habitação com garantia do Estado, num montante total de 8,3 mil milhões de euros. O mecanismo permite ao Estado garantir até 15% do valor da transação, para jovens até aos 35 anos que cumpram os requisitos definidos.

Apoios não resolvem o problema da oferta

Apesar das medidas dirigidas aos compradores jovens, os organismos internacionais defendem que o problema português não pode ser resolvido apenas através de incentivos à procura.

A OCDE considera necessário aumentar a oferta de habitação, simplificar processos de construção e melhorar a utilização do parque habitacional existente. A organização chama também a atenção para o elevado número de casas que não são utilizadas como residência habitual.

De acordo com a análise da OCDE, 12% das habitações estavam vagas e 19% eram utilizadas como casas de férias em 2021, uma das maiores proporções entre os países da organização.

O FMI aponta igualmente para a necessidade de aumentar de forma duradoura a oferta de habitação e corrigir problemas estruturais no mercado. Para o organismo, a construção insuficiente, a utilização ineficiente do parque habitacional e as características do mercado de arrendamento contribuíram para a rápida subida dos preços.

Um problema que ultrapassa a compra da primeira casa

A dificuldade em comprar casa tem consequências que vão além da aquisição de um imóvel. Para muitos jovens, a impossibilidade de comprar pode significar permanecer mais tempo em casa dos pais, adiar a formação de uma família ou optar por viver mais longe dos grandes centros urbanos, onde os preços são mais baixos.

A pressão também afeta quem já tem casa, mas pretende mudar-se. A OCDE considera que os custos elevados podem dificultar a mobilidade residencial e até limitar oportunidades profissionais quando as pessoas não conseguem mudar de habitação para acompanhar uma nova oportunidade de emprego.

Os dados mais recentes apontam, assim, para um mercado habitacional marcado por uma contradição: existem mecanismos públicos que reduzem alguns dos custos de aquisição para os jovens, mas os preços continuam a crescer rapidamente.

Enquanto o preço das casas continuar a subir mais depressa do que a capacidade financeira de uma parte significativa das famílias, a compra de habitação própria deverá continuar a representar um dos principais desafios económicos para os jovens em Portugal.

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