Cúpula social-democrata mantém apoio ao ministro da Administração Interna, enquanto declarações de figuras próximas de António José Seguro aumentam a pressão sobre Luís Montenegro. Presidente da República garante que não manda “recados por ninguém”.
A cúpula do PSD mantém-se unida no apoio a Luís Neves, mas a polémica em torno do ministro da Administração Interna está a provocar um crescente sentimento de “desconforto” e “perplexidade” dentro do próprio partido.
Enquanto Luís Montenegro continua a defender a permanência do ministro no Governo, a pressão política aumenta e ganhou uma nova dimensão com as declarações de figuras próximas do Presidente da República, António José Seguro. O chefe de Estado, contudo, rejeita a ideia de estar a transmitir mensagens ao primeiro-ministro através de terceiros.
A tensão entre São Bento e Belém agravou-se esta semana, depois de o PSD ter reagido às intervenções de personalidades próximas de Seguro que têm defendido a necessidade de resolver rapidamente o caso Luís Neves.
PSD mantém apoio ao ministro
A posição oficial da direção social-democrata continua a ser de confiança em Luís Neves.
Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, afirmou que o ministro já prestou esclarecimentos sobre as polémicas que lhe dizem respeito e defendeu o seu trabalho à frente da Administração Interna. O dirigente social-democrata afirmou também ter “absoluta confiança” no discernimento político e ético de Luís Montenegro.
A linha adotada pelo partido é, assim, a de que cabe ao primeiro-ministro decidir sobre a continuidade dos seus ministros e que as várias investigações e auditorias em curso devem chegar primeiro às suas conclusões.
Luís Neves tem também rejeitado a existência de qualquer irregularidade grave e afirmou estar “absolutamente tranquilo” perante as auditorias e investigações relacionadas com o período em que dirigiu a Polícia Judiciária.
Desconforto começa, contudo, a sentir-se no PSD
Por detrás da posição oficial, a situação é menos consensual.
A sucessão de polémicas que envolvem Luís Neves e a insistência de Luís Montenegro em mantê-lo no Governo começam a gerar desconforto entre alguns setores do PSD, sobretudo perante a perceção de que o caso deixou de ser apenas um problema relacionado com a atuação individual do ministro e passou a representar um desgaste para o próprio Governo.
A pressão aumentou depois das declarações de figuras próximas de António José Seguro.
Álvaro Beleza, dirigente socialista e apoiante de longa data do Presidente da República, afirmou ao Diário de Notícias estar “confiante” de que o caso Luís Neves ficará resolvido antes de 5 de outubro, “a bem da confiança nas instituições”. Já Adalberto Campos Fernandes, conselheiro presidencial, considerou existirem “sinais muito preocupantes” que indiciam um funcionamento irregular das instituições.
Embora nenhum dos dois tenha falado formalmente em nome do Presidente, as declarações foram interpretadas em São Bento e na direção do PSD como uma forma indireta de pressão sobre o Governo.
“Seguro não manda recados por ninguém”
António José Seguro acabou por reagir à polémica.
A partir de Porto Covo, onde se encontra de férias, o Presidente da República garantiu esta quinta-feira que não manda “recados por ninguém” e deixou claro que ninguém fala em seu nome.
A declaração surgiu depois de Luís Montenegro ter criticado a existência de mensagens públicas provenientes de pessoas próximas de Belém.
“Eu não mando recados a ninguém; eu falo com o povo, para as pessoas”, afirmou Seguro, numa resposta que procura afastar a ideia de que esteja a usar os seus apoiantes para pressionar o primeiro-ministro.
O Presidente já tinha defendido anteriormente que cada órgão de soberania deve assumir as suas responsabilidades e que as investigações relacionadas com Luís Neves devem ser concluídas rapidamente. Em julho, Seguro afirmou ainda que está “muito atento” ao que acontece, mas que fala “no momento certo e no local adequado”.
Montenegro recusa governar à base de “recados”
Luís Montenegro tem resistido aos pedidos para afastar Luís Neves e insiste que não governa em função de pressões públicas.
O primeiro-ministro considera que as decisões devem ser tomadas com base nos factos e nas suas próprias convicções, recusando aquilo que entende serem tentativas de condicionar a ação do Governo através de declarações públicas.
No PSD, Hugo Soares reforçou essa posição e afirmou não acreditar que António José Seguro envie “recados por amigos”, apesar de reconhecer que várias personalidades próximas do Presidente têm assumido posições críticas em relação ao ministro.
Sebastião Bugalho, vice-presidente e porta-voz do PSD, também rejeitou a ideia de que o Presidente recorra a terceiros para fazer chegar mensagens ao Governo. Já Hugo Soares considerou que seria “patético” imaginar que o chefe de Estado utilizasse amigos para esse efeito.
Chega transforma caso em crise política
Entretanto, a oposição aproveitou a polémica para aumentar a pressão sobre o Governo.
O Chega apresentou uma moção de censura ao Governo, colocando Luís Neves no centro da iniciativa. A votação está marcada para 8 de setembro, depois de os partidos terem acordado antecipar o debate parlamentar.
André Ventura considera que o ministro já não reúne condições políticas para permanecer no Governo e tem procurado transformar o caso numa questão mais ampla sobre a credibilidade das instituições.
O PS, por sua vez, não deverá viabilizar a moção de censura, mas também tem aumentado a pressão política sobre o Executivo. José Luís Carneiro já terá transmitido a Luís Montenegro preocupação com o impacto que as polémicas e uma eventual comissão parlamentar de inquérito poderão ter na credibilidade das instituições.
Uma crise que já ultrapassa Luís Neves
O caso começa, assim, a assumir uma dimensão que ultrapassa a figura do ministro da Administração Interna.
De um lado está Luís Montenegro, que mantém a confiança no seu ministro e rejeita pressões externas. Do outro, o Chega procura transformar a polémica numa crise política, enquanto o PS alerta para o desgaste das instituições.
Pelo meio está António José Seguro, que procura preservar a separação entre os poderes e evitar uma intervenção direta numa decisão que, constitucionalmente, cabe ao primeiro-ministro.
O Presidente já afirmou que conhece as posições de Luís Montenegro e que cada órgão de soberania deve atuar dentro das suas competências. Ao mesmo tempo, figuras do seu círculo político continuam a exigir que a situação seja resolvida.
O resultado é um ambiente de crescente tensão entre Belém e São Bento, com o PSD a cerrar fileiras publicamente em torno de Luís Neves, mas com sinais de que o desconforto interno começa a ganhar força.
Na próxima terça-feira, a discussão chega ao Parlamento, com a votação da moção de censura do Chega. Até lá, Montenegro mantém a sua posição: Luís Neves continua no Governo e a decisão sobre a sua permanência pertence ao primeiro-ministro.



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