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«Muda»: a tradição ancestral da transumância que perdura em Castro Laboreiro

«Muda»: a tradição ancestral da transumância que continua a marcar a identidade de Castro Laboreiro Entre Brandas e Inverneiras, os Castrejos mantiveram, ao longo de gerações, um modo de vida único, adaptado às diferenças de altitude, clima e disponibilidade de pastagens. Em Castro Laboreiro, no concelho de Melgaço, a relação entre o Homem, a montanha…

«Muda»: a tradição ancestral da transumância que perdura em Castro Laboreiro

«Muda»: a tradição ancestral da transumância que continua a marcar a identidade de Castro Laboreiro

Entre Brandas e Inverneiras, os Castrejos mantiveram, ao longo de gerações, um modo de vida único, adaptado às diferenças de altitude, clima e disponibilidade de pastagens.

Em Castro Laboreiro, no concelho de Melgaço, a relação entre o Homem, a montanha e a natureza deu origem a uma tradição secular conhecida como «Muda» ou transumância. Um costume profundamente enraizado na identidade castreja, que consistia na deslocação sazonal das famílias e dos seus animais entre as Brandas e as Inverneiras, acompanhando as mudanças do clima e das condições de pastagem.

A freguesia de Castro Laboreiro conta com 42 lugares, divididos em três categorias: Brandas, Inverneiras e lugares fixos. Esta organização está diretamente relacionada com as características geográficas de um território que apresenta uma grande diversidade de altitudes e microclimas, desde os cerca de 350 metros, na «Junta das Águas», até aos 1370 metros de altitude, no alto do Giestoso.

As Brandas situam-se na zona mais elevada, entre os 1000 e os 1200 metros de altitude, nas proximidades do planalto. São lugares com terrenos mais regulares e extensas áreas de pastagem, oferecendo melhores condições para alimentar o gado. Contudo, durante o inverno, a neve e o frio intenso tornam a permanência nestes locais particularmente difícil, chegando os nevões a bloquear caminhos e estradas durante vários dias ou semanas.

Já as Inverneiras encontram-se numa zona mais baixa, ao longo do vale do rio Laboreiro, entre os 700 e os 950 metros de altitude. Rodeadas por extensas carvalheiras e protegidas pelo relevo acidentado, apresentam um clima mais ameno e abrigado, permitindo às populações enfrentar os meses mais rigorosos do inverno. Apesar de possuírem áreas de pastagem mais reduzidas e terrenos mais difíceis, proporcionavam melhores condições de permanência durante esta estação.

Entre estas duas realidades encontram-se os lugares fixos, situados maioritariamente entre os 950 e os 1050 metros de altitude, onde as populações permaneciam durante todo o ano.

Uma mudança que envolvia toda a família

Era por volta de meados de dezembro, com a chegada do frio e dos primeiros grandes nevões, que começava a «Muda». As famílias abandonavam temporariamente as suas casas nas Brandas e deslocavam-se para as Inverneiras, levando praticamente tudo o que possuíam: alimentos, roupas, utensílios domésticos, ferramentas agrícolas e, naturalmente, todo o gado e os restantes animais.

Cada família tinha, assim, duas casas e duas aldeias, adaptando a sua vida às exigências da montanha e às condições naturais de cada época do ano.

Nas Inverneiras permaneciam aproximadamente três meses, desde meados de dezembro até meados de março. Esta mudança permitia-lhes proteger-se das temperaturas mais baixas e garantir melhores condições para a alimentação dos animais.

O regresso à montanha anunciava a primavera

Com a chegada da primavera e a subida gradual das temperaturas, por volta de meados de março, chegava novamente a altura de regressar às Brandas, sempre antes da Páscoa.

As famílias voltavam a carregar as «trouchas» nos carros de vacas e percorriam o caminho de regresso às suas habitações, na zona mais elevada de Castro Laboreiro. Aí encontravam pastagens mais abundantes e melhores condições para alimentar o gado durante os meses mais quentes.

Este ciclo repetia-se todos os anos, atravessando gerações e fazendo da «Muda» muito mais do que uma simples deslocação sazonal: era uma forma de organização da vida familiar, económica e comunitária, profundamente ligada à natureza e ao território.

Hoje, a «Muda» representa um dos testemunhos mais singulares do património cultural e etnográfico de Castro Laboreiro, recordando a capacidade de adaptação das suas gentes e a ligação ancestral entre as comunidades serranas e a montanha.

Uma tradição que merece ser preservada e conhecida, enquanto memória viva da identidade castreja.

Texto de referência: www.aldeiadepontes.com

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