Traficante, canábis medicinal e um ex-governante: o caso que promete dar que falar
Uma investigação divulgada esta segunda-feira pelo jornal Público, revelou que uma consultora fundada por Eurico Castro Alves, antigo secretário de Estado da Saúde e ex-presidente do Infarmed, terá intermediado contactos entre investidores do setor da canábis medicinal e um empresário brasileiro posteriormente associado a redes de tráfico de droga e ao grupo criminoso Primeiro Comando da Capital (PCC).
Segundo a investigação, a empresa Wise HS, criada por Eurico Castro Alves para prestar apoio a projetos de canábis medicinal, facilitava processos de licenciamento junto do Infarmed e promovia oportunidades de negócio neste setor emergente. Entre os contactos estabelecidos encontrava-se Cláudio Rocha Júnior, empresário brasileiro que viria a ser identificado pelas autoridades por suspeitas de tráfico de droga e branqueamento de capitais, tendo posteriormente sido condenado em Portugal por tráfico de estupefacientes.
O nome de Cláudio Rocha Júnior surgiu no âmbito das investigações relacionadas com o chamado “avião da cocaína”, um Falcon 900 da empresa portuguesa OMNI Aviation intercetado no Brasil em 2021 com centenas de quilogramas de cocaína a bordo. As investigações brasileiras identificaram alegadas ligações do empresário ao PCC, uma das maiores organizações criminosas da América do Sul.
A revelação reacende o debate sobre potenciais conflitos de interesses entre antigos responsáveis públicos e negócios privados regulados por entidades que anteriormente dirigiram. A Wise HS desenvolvia atividade na área da canábis medicinal, apoiando empresas interessadas em obter autorizações e cumprir os requisitos regulamentares do mercado português.
Até ao momento, não foi divulgada qualquer acusação judicial contra Eurico Castro Alves relacionada com estes contactos. As notícias publicadas referem-se à apresentação e aproximação empresarial entre investidores do setor e o empresário brasileiro, não existindo indicação de que o ex-governante tivesse conhecimento de eventuais atividades ilícitas atribuídas posteriormente a Cláudio Rocha Júnior.
O caso surge numa altura em que Eurico Castro Alves continua a ser uma figura influente na área da saúde, tendo sido apontado nos últimos anos como próximo de responsáveis governativos e ligado a diversas iniciativas empresariais no setor da saúde e da canábis medicinal.