“Não sabia de nada”: a defesa de Luís Neves está a incendiar a política e a levantar ainda mais dúvidas
Casa sem licença, o “tanque” que afinal era uma piscina, o empreiteiro amigo, o polémico atrelado apreendido pela PJ e uma sucessão de explicações que deixam mais perguntas do que respostas. O ministro da Administração Interna enfrenta a maior crise da sua carreira política.
Luís Neves, antigo diretor nacional da Polícia Judiciária e atual ministro da Administração Interna, atravessa aquele que poderá ser o momento mais difícil da sua vida pública.
Nas últimas semanas, uma sucessão de revelações colocou o governante sob um intenso escrutínio político e mediático, levantando dúvidas sobre obras realizadas na sua habitação, a relação com um empreiteiro que recebeu adjudicações da Polícia Judiciária e, mais recentemente, o polémico caso do armazenamento de um atrelado apreendido numa operação de combate ao tráfico de droga.
Embora, até ao momento, não exista qualquer decisão judicial que conclua pela prática de crimes por parte de Luís Neves, o acumular de episódios transformou o caso num dos maiores escândalos políticos dos últimos tempos.
Da “pequena remodelação” a uma obra muito mais abrangente
A polémica começou quando foi noticiado que Luís Neves contratou a empresa Construbarcelos para realizar obras na sua propriedade em São Teotónio, no concelho de Odemira.
A mesma empresa havia recebido, durante os anos em que Luís Neves dirigia a Polícia Judiciária, diversas adjudicações públicas no valor global de cerca de dois milhões de euros.
O ministro garante que nunca existiu qualquer favorecimento e afirma que apenas desenvolveu uma relação de amizade com o empresário numa fase posterior à maioria dessas adjudicações.
Contudo, novos elementos vieram aumentar o escrutínio.
Aquilo que inicialmente foi apresentado como uma intervenção limitada revelou-se uma obra bastante mais extensa, envolvendo alpendres, arranjos exteriores, estacionamento e uma estrutura inicialmente descrita como um simples “tanque”, mas que acabou por ser identificada como uma piscina.
Também surgiram dúvidas sobre o enquadramento urbanístico da obra e sobre a existência das respetivas licenças municipais, matérias que continuam sob análise pelas entidades competentes.
Sem contrato escrito
Outro dos aspetos que gerou surpresa foi a confirmação de que não existia qualquer contrato escrito entre Luís Neves e o empreiteiro.
O governante justificou essa opção com a relação de confiança existente entre ambos, acrescentando posteriormente que as obras estavam a ser pagas pela família, divulgando um conjunto de faturas para sustentar essa versão.
O caso do atrelado leva a polémica para outro nível
Quando a controvérsia parecia centrar-se apenas nas obras particulares, surgiu um novo episódio.
Foi revelado que um atrelado apreendido pela Polícia Judiciária numa operação de combate ao tráfico de droga esteve armazenado nas instalações da empresa do mesmo empreiteiro que executava as obras na casa do ministro.
Segundo responsáveis da Polícia Judiciária, a decisão terá resultado da falta de espaço e de dificuldades logísticas relacionadas com a destruição dos produtos apreendidos.
Apesar dessa explicação, o episódio originou novas investigações e levantou dúvidas sobre a cadeia de custódia da prova e sobre os procedimentos adotados pela Polícia Judiciária.
“Não sabia”
As mais recentes declarações públicas de Luís Neves vieram, porém, alimentar ainda mais a controvérsia.
Perante os jornalistas, o ministro procurou afastar qualquer responsabilidade, afirmando desconhecer vários dos factos que hoje estão no centro da polémica. Garantiu que nunca teve conhecimento das decisões relacionadas com o armazenamento do atrelado e rejeitou ter praticado qualquer ilegalidade ou beneficiado de qualquer tratamento de favor.