A investigação desta semana do “Doa a Quem Doer”, de Tânia Laranjo, voltou a colocar influencers e figuras públicas no centro do negócio dos casinos sem licença portuguesa. Mas há uma parte menos visível da cadeia que merece escrutínio: se estas plataformas são ilegais em Portugal, como conseguem algumas receber depósitos através de meios de pagamento utilizados diariamente pelos portugueses? E quem controla o circuito financeiro?
Os casinos online sem licença portuguesa voltaram esta semana ao centro da atualidade. Numa investigação divulgada esta semana pelo programa ‘Doa a Quem Doer’, da CMTV, Tânia Laranjo colocou o negócio dos casinos ilegais e a promoção feita por influencers no centro da discussão.
A apresentação pública da investigação é contundente: fala em “falsos ganhos” apresentados nas redes sociais e numa alegada “ilusão do sucesso” criada para captar jogadores. O episódio tem 33 minutos e é apresentado como uma investigação à forma como funciona o negócio dos jogos ilegais.
Há matéria que merece investigação. Se existem influencers que apresentam deliberadamente saldos fictícios como ganhos reais, utilizam documentação manipulada ou induzem seguidores em erro, esses comportamentos devem ser individualmente apurados.
Mas concentrar a discussão quase exclusivamente em quem aparece nos stories deixa por responder uma pergunta essencial:
como chega o dinheiro do jogador português a um casino que não está autorizado a operar em Portugal?
O influencer mostra o casino. Mas não processa o depósito
A distinção é importante.
O influencer pode publicitar uma plataforma, disponibilizar um link ou código e incentivar os seguidores a experimentá-la.
Mas não é o influencer que gere o sistema bancário, processa uma transferência ou disponibiliza ao jogador uma referência para pagamento.
E algumas plataformas sem licença portuguesa anunciam precisamente métodos de pagamento profundamente familiares aos consumidores nacionais.
Um exemplo publicamente documentado é o Twin Casino. Uma análise publicada em março deste ano identifica-o como uma plataforma sem licença válida em Portugal e refere expressamente a disponibilização de Multibanco e MB WAY como métodos de pagamento locais.
É neste ponto que a investigação sobre o jogo ilegal pode deixar o Instagram e entrar no sistema financeiro.
Se não pode operar em Portugal, como recebe dinheiro de Portugal?
A pergunta é simples.
Se determinado casino não está autorizado pelo SRIJ a explorar jogo online em Portugal, como consegue disponibilizar ao jogador português meios de pagamento associados ao mercado nacional?
A resposta pode não ser simples.
Entre o jogador e o operador podem existir bancos, entidades adquirentes, instituições de pagamento, gateways, intermediários e outras empresas. A utilização de MB WAY ou Multibanco não permite, por si só, concluir que a SIBS tenha uma relação comercial direta com determinado casino.
Mas permite fazer perguntas.
Quem recebe o pagamento?
Que entidade aparece como comerciante?
Qual é o prestador de serviços de pagamento utilizado?
O dinheiro segue diretamente para o operador ou passa por intermediários?
Que atividade foi declarada pelo comerciante?
Existem mecanismos destinados a identificar pagamentos associados a operadores de jogo sem licença portuguesa?
E, talvez a pergunta mais importante:
quando o SRIJ identifica um operador ilegal, essa informação é partilhada com as entidades capazes de interromper os seus pagamentos?
Há consumidores que já levantaram precisamente esta questão
O problema não é apenas teórico.
Em setembro de 2025, uma consumidora apresentou publicamente no Portal da Queixa uma reclamação contra o Santander, alegando ter realizado operações através de MB WAY para casinos não licenciados, indicando a EuPago como intermediária em algumas dessas transações.
Trata-se de uma reclamação de uma consumidora — e não de uma conclusão de uma autoridade ou decisão judicial —, pelo que não demonstra qualquer irregularidade do banco, da EuPago ou da SIBS.
Mas demonstra que a relação entre pagamentos nacionais e plataformas de jogo não licenciadas já foi publicamente questionada por utilizadores.
É precisamente aqui que poderia existir matéria para uma investigação jornalística complementar.
E a SIBS foi confrontada?
O VOX procurou nas descrições públicas e referências acessíveis relativas à investigação desta semana uma resposta a uma pergunta concreta:
a SIBS foi confrontada sobre a utilização de MB WAY e Multibanco por plataformas de jogo sem licença portuguesa?
Nas fontes públicas consultadas pelo VOX não encontrámos referência a uma resposta da SIBS nem elementos suficientes para afirmar que a empresa tenha sido contactada no âmbito desta reportagem.
Isto não significa que Tânia Laranjo ou a equipa do programa não tenham feito esse contacto. Significa apenas que, com a informação pública disponível que consultámos, não é possível confirmá-lo.
O episódio divulgado centra a sua apresentação nos influencers, nos alegados falsos ganhos e na forma como os seguidores são atraídos para estas plataformas.
A questão financeira permanece, por isso, merecedora de esclarecimento.
Investigar os influencers é legítimo. Investigar quem movimenta o dinheiro também
Não está em causa retirar responsabilidade a quem engane deliberadamente seguidores.
Mas também não é jornalisticamente rigoroso transformar todos os influencers que promovem jogo numa única categoria.
Há uma diferença entre fazer publicidade, apresentar um bónus, simular um ganho, falsificar documentação, ocultar a natureza publicitária de um conteúdo ou participar conscientemente num esquema fraudulento.
Cada comportamento deve ser demonstrado e individualizado.
A própria descrição pública do programa utiliza uma expressão particularmente forte ao referir-se a influencers e estrelas televisivas que fariam da “burla um modo de vida”.
Uma afirmação dessa gravidade exige distinguir quem simplesmente promoveu uma plataforma de quem efetivamente praticou atos suscetíveis de constituir crime.
E existe um dado importante: segundo uma peça publicada na sequência da investigação, apesar de serem referidas mais de 4.000 queixas entregues às autoridades, não existiriam ainda acusações formais relacionadas com os casos ali abordados.
Dependência do jogo não é sinónimo de casino ilegal
Existe ainda outra discussão que frequentemente aparece misturada neste debate: a dependência.
Um casino não se torna potencialmente viciante apenas quando perde a licença portuguesa.
O risco associado ao jogo existe igualmente no mercado regulado — razão pela qual os operadores licenciados estão sujeitos a regras de jogo responsável, identificação, autoexclusão e proteção dos jogadores.
A licença não transforma uma slot machine num produto incapaz de provocar comportamento problemático.
A diferença está no enquadramento.
No mercado regulado existem regras portuguesas, fiscalização do SRIJ e mecanismos obrigatórios de proteção.
No mercado ilegal, Portugal não dispõe do mesmo controlo sobre o operador.
Ilegalidade e dependência são, portanto, problemas relacionados, mas não equivalentes.
Também a questão dos menores exige precisão
O mesmo acontece quando se fala de menores.
A proteção de menores constitui uma das razões para a existência de um mercado regulado. Um operador legal está obrigado a verificar a identidade dos jogadores e impedir o acesso de quem não possui idade legal.
Se esses mecanismos forem contornados ou falharem num operador licenciado, isso também merece investigação.
Mas apresentar o jogo de menores como uma característica exclusiva dos casinos ilegais volta a misturar dois problemas distintos: o risco social associado ao jogo e o estatuto jurídico do operador.
E os influencers que vivem no Dubai?
Há ainda outro elemento praticamente ausente da discussão pública.
Uma parte dos influencers portugueses associados à promoção de casinos vive atualmente fora de Portugal, nomeadamente no Dubai.
Isso levanta uma questão jurídica que não pode ser resolvida apenas olhando para o passaporte do influencer ou para a língua utilizada num story.
Um português residente no Dubai que grava e publica naquele país não está automaticamente protegido da legislação portuguesa em todas as circunstâncias.
Mas o inverso também merece ser dito:
falar português numa publicação feita no Dubai não transforma automaticamente essa publicação em publicidade dirigida ao mercado português.
Para avaliar uma situação concreta seria necessário analisar, entre outros elementos, o público-alvo, a localização dos seguidores, os links utilizados, a campanha contratada, o mercado a que se destina e a participação efetiva do influencer.
Cada caso necessita, portanto, de análise própria.
O influencer tem rosto. O sistema de pagamentos não
Há uma razão evidente para os influencers dominarem este tipo de reportagem.
São reconhecíveis.
Têm milhares de seguidores.
Mostram carros, hotéis, viagens e estilos de vida luxuosos.
Produzem imagens televisivamente fortes.
Uma instituição financeira, um intermediário de pagamentos ou uma infraestrutura tecnológica dificilmente produz o mesmo impacto.
Mas isso não torna esses intervenientes menos relevantes.
Sem publicidade pode continuar a existir um casino.
Sem dinheiro a entrar, não existe negócio.
É por isso que seguir o percurso de um depósito poderá revelar tanto ou mais sobre o mercado ilegal do que seguir os stories de um influencer.
A investigação que falta fazer
O teste jornalístico poderia até começar de forma relativamente simples.
Entrar numa plataforma identificada como não licenciada em Portugal.
Selecionar a opção de depósito.
Escolher MB WAY ou Multibanco, quando disponível.
E documentar todo o percurso até ao momento anterior à concretização da transação.
Que entidade surge?
Quem fornece a referência?
Quem é apresentado como beneficiário?
Qual o intermediário?
Depois, confrontar cada interveniente: operador, instituição de pagamento, banco, SIBS, Banco de Portugal e SRIJ.
E perguntar como é possível que um operador considerado ilegal em Portugal consiga disponibilizar aos consumidores portugueses meios de pagamento integrados no seu quotidiano financeiro.
A imprensa tem toda a legitimidade para investigar influencers.
Os influencers têm igualmente de responder pelos seus próprios atos quando existam indícios concretos de publicidade enganosa ou outras ilegalidades.
Mas talvez o debate esteja demasiado concentrado na parte mais visível e menos concentrado na estrutura que permite ao negócio funcionar.
Porque o influencer pode publicar o link.
Pode aparecer a jogar.
Pode convencer o seguidor.
Mas não é o influencer que faz aparecer uma referência Multibanco nem é ele que processa um pagamento por MB WAY.
Se Portugal quer realmente perceber a dimensão do negócio dos casinos ilegais, talvez esteja na altura de seguir menos os stories — e começar a seguir o dinheiro.



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