Ata da Junta de Freguesia de Manhente, em Barcelos, descreve uma reunião do Executivo que terá descambado em insultos, ameaças e confronto físico. O presidente é acusado de agarrar o secretário pelo pescoço e de o atingir com três socos. Secretário e tesoureira acabaram no Hospital de Barcelos, o caso foi participado às autoridades e a reunião terminou sem uma única deliberação.
Uma reunião da Junta de Freguesia de Manhente, no concelho de Barcelos, terminou sem que o Executivo conseguisse deliberar qualquer assunto depois de uma sucessão de acontecimentos que a ata descreve como envolvendo provocações, ameaças, insultos e agressões físicas.
No centro do episódio está o presidente da Junta, Roberto Bragas (à esquerda na fotografia), e o secretário do Executivo, Ricardo Xavier Gomes Vilas Boas (à direita na fotografia).
De acordo com a ata da reunião que o Semanário Vox consultou, o presidente terá começado por dirigir provocações ao secretário e à tesoureira, Joana Isabel Borges Fernandes, utilizando expressões como «tendes de ter muita paciência para me aguentar», «vou-vos fazer a vida cara» e «quero-vos daqui para fora».
Mas, segundo o relato formalmente registado no documento, a situação não terá ficado pelas palavras.
Ata relata que presidente agarrou secretário pelo pescoço
A ata refere que Roberto Bragas se terá aproximado fisicamente do secretário, colocando o rosto muito próximo do seu.
Ricardo Vilas Boas terá então recuado e pedido ao presidente que mantivesse distância. Segundo o documento, o presidente voltou a aproximar-se e, momentos depois, «agarrou o Senhor Secretário pela zona do pescoço», libertando-o de seguida.
O secretário afastou-se em direção à rampa de acesso às instalações para atender uma chamada telefónica.
Foi então, segundo a mesma ata, que a situação voltou a escalar.
«Trinco-te todo» e «tenho um cigano da Póvoa para te foder o canastro»
Enquanto o secretário se encontrava ao telefone, o presidente terá dirigido novas expressões que o documento classifica como de «teor ameaçador».
Entre as frases registadas encontram-se «trinco-te todo», «tenho um cigano da Póvoa para te foder o canastro» e «põe-te fino, filho da puta».
A ata prossegue relatando que Roberto Bragas terá voltado a aproximar-se de Ricardo Vilas Boas e «agredindo-o com mais 3 socos na zona do ombro direito».
A tesoureira, que segundo o documento presenciou diretamente os acontecimentos, terá intervindo, colocando-se entre o presidente e o secretário para impedir que a situação se agravasse.
Casal que estava na Junta falou em aparente embriaguez
O documento contém ainda outro relato particularmente sensível.
Durante o período de atendimento ao público, entre as 19h00 e as 19h30, encontravam-se nas instalações da Junta dois casais.
Segundo a ata, um desses casais terá presenciado a chegada de Roberto Bragas e considerado que este apresentava «um estado de alteração evidente, aparentando encontrar-se sob a influência de álcool».
O documento atribui às testemunhas a observação de sinais que consideraram compatíveis com consumo de álcool, nomeadamente odor intenso a álcool, discurso alterado, dificuldade de articulação, tom de voz elevado, dificuldade em manter o equilíbrio e comportamento exaltado.
A ata faz, porém, uma ressalva relevante: esse casal apenas terá presenciado a chegada do presidente e o seu estado naquele momento, não tendo testemunhado os restantes acontecimentos descritos na reunião.
Segundo o documento, o casal terá classificado aquela apresentação como «inaceitável» e uma «vergonha para a Freguesia», referindo ainda que o presidente se apresentava «embriagado, odor a álcool, a falar muito alto, todo alterado e dirigiu-se a nós, sem educação».
Estas afirmações correspondem aos testemunhos registados na ata e não constituem, por si só, uma determinação médica de que o presidente se encontrava alcoolizado.
Secretário e tesoureira acabaram no Hospital de Barcelos
As consequências do episódio não ficaram dentro das instalações da Junta.
Segundo a ata, na sequência dos acontecimentos, o secretário deslocou-se ao Hospital de Barcelos, acompanhado pela tesoureira, onde recebeu assistência médica.
A presidente da Assembleia de Freguesia, Joana Pereira, também se terá deslocado ao hospital, onde encontrou os dois membros do Executivo.
Posteriormente, Ricardo Vilas Boas participou os factos às autoridades policiais, designadamente à Guarda Nacional Republicana, tendo fornecido informação sobre as pessoas que se encontravam nas instalações durante o atendimento ao público e que poderiam prestar esclarecimentos sobre aquilo que tinham presenciado.
Reunião acabou sem uma única decisão
A dimensão do conflito acabou por paralisar completamente o funcionamento do Executivo naquela noite.
A ata afirma que, «face aos acontecimentos descritos, não foi possível prosseguir normalmente com os trabalhos da reunião».
Consequentemente, não foi apreciado nem deliberado qualquer assunto e nenhuma decisão foi tomada pelo Executivo da Junta de Freguesia.
A reunião foi simplesmente dada por encerrada.
Presidente recusou assinar a ata
O episódio teve ainda um capítulo posterior.
A ata relativa à reunião foi apresentada aos membros presentes e, no dia 10 de setembro de 2026, procedeu-se à respetiva leitura na presença da presidente da Assembleia de Freguesia.
Segundo o próprio documento, Roberto Bragas recusou assinar a ata.
A recusa ficou expressamente registada: «Presidente: Recusou-se a assinar a presente ata.»
O secretário Ricardo Vilas Boas e a tesoureira Joana Fernandes, por sua vez, procederam à assinatura do documento.
Emails revelam tensão anterior
A documentação anexada à ata mostra ainda que existia tensão entre os elementos do Executivo antes desta reunião.
Numa troca de emails posterior, o secretário refere expressamente acontecimentos da reunião anterior, que diz ter presenciado diretamente, mencionando «injúrias, agressões físicas, ameaças» e uma alegada situação de «estado de embriaguez».
O documento permite, portanto, perceber que o conflito não terminou necessariamente na noite relatada na ata e que as relações dentro do Executivo se encontravam profundamente deterioradas.
Uma ata invulgarmente pesada
O documento deixa registado um cenário pouco habitual numa reunião de um órgão autárquico: alegadas ameaças, insultos, contacto físico, três socos, testemunhos sobre um aparente estado de alteração, deslocação ao hospital, participação às autoridades e uma reunião interrompida sem qualquer deliberação.
Há, contudo, uma distinção fundamental: a ata regista essencialmente os acontecimentos segundo o relato do secretário, da tesoureira e das testemunhas nela mencionadas. A recusa do presidente em assinar o documento não constitui, por si só, confirmação nem refutação das acusações.



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