Debandada autárquica agrava crise no Chega: pelo menos dez vereadores abandonaram o partido desde as últimas eleições
Desde as eleições autárquicas de 12 de outubro de 2025, o Chega perdeu pelo menos dez vereadores eleitos em diferentes câmaras municipais do país, num fenómeno de desvinculações sucessivas que tem marcado o pós-eleições do partido liderado por André Ventura.
O caso mais recente ocorreu em Torres Novas. José Fernando Cardoso Carola, único vereador eleito pelo Chega naquele município, anunciou ontem, em reunião da Câmara Municipal transmitida no YouTube, a sua decisão de passar a vereador independente. A saída já tinha sido comunicada ao partido por email a 17 de março de 2026.
A lista de desertores é extensa e atravessa várias regiões do país. Em Lisboa, a 19 de janeiro, Ana Simões Silva, a segunda vereadora eleita pelo Chega na capital, anunciou a sua desfiliação, invocando “incompatibilidades políticas intransponíveis” com Bruno Mascarenhas, que passou a ser o único representante do partido no executivo lisboeta.
Em Vila Nova de Gaia, António Barbosa desvinculou-se do Chega no final de janeiro e integrou dias depois o executivo municipal liderado por Luís Filipe Menezes (PSD), garantindo a maioria ao presidente da câmara. Assumiu os pelouros das feiras, mercados, ambiente e bem-estar animal, acumulando ainda funções como adjunto do presidente.
Também em Mirandela, Luís Saraiva passou a independente poucos dias após a eleição e ainda antes da tomada de posse, alegando divergências com a direção distrital e falta de apoio durante a campanha. Na Marinha Grande, Emanuel Vindeirinho abandonou o partido após críticas da concelhia.
No Funchal, o Chega perdeu toda a representação no executivo municipal. Luís Filipe Santos e Jorge Afonso Freitas anunciaram a saída do partido e a passagem a independentes, justificando a decisão com divergências com a estrutura regional e com a liderança do Chega/Madeira. Já Miguel Castro classificou a saída como um “alívio político”.
Em Coimbra, Maria Lencastre Portugal desfiliou-se em janeiro, apontando uma “incompatibilidade objetiva” entre as orientações internas do partido e a sua forma de exercer o mandato. No Fundão, Hugo Silva anunciou a saída após um período de reflexão, afirmando que coloca os interesses do concelho acima de qualquer estrutura partidária.
Em Ourém, Rita Sousa renunciou ao mandato cinco meses após ter sido eleita, desvinculando-se do Chega e anunciando o afastamento definitivo da vida política.
Além dos vereadores, dezenas de autarcas eleitos pelo Chega passaram a independentes em vários concelhos e freguesias, incluindo Porto, Barcelos, Azambuja, Coimbra e Aveiras, aprofundando uma tendência de fragmentação autárquica que levanta dúvidas sobre a coesão interna do partido a nível local.
A sucessão de saídas expõe tensões internas recorrentes, divergências políticas e conflitos com estruturas distritais e regionais, num momento em que o Chega procura consolidar a sua implantação no poder local.



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