Troca direta no SNS: saem socialistas, entram sociais-democratas nas administrações hospitalares
Executivo de Luís Montenegro nomeou 26 novos presidentes para as Unidades Locais de Saúde desde 2024. Cerca de 69% dos escolhidos têm ligações conhecidas ao PSD ou ao CDS, incluindo antigos deputados, autarcas e dirigentes partidários.
O Governo liderado por Luís Montenegro substituiu, em pouco mais de dois anos, 26 presidentes de conselhos de administração das Unidades Locais de Saúde (ULS), alterando cerca de dois terços das lideranças das 39 unidades existentes no país.
De acordo com os dados analisados pelo Observador, 18 dos novos presidentes nomeados têm ligações conhecidas ao PSD ou ao CDS, o que representa cerca de 69% do total das nomeações realizadas pelo atual Executivo. Entre os escolhidos encontram-se antigos deputados, presidentes de câmara, vereadores, candidatos autárquicos e dirigentes de estruturas locais dos partidos da coligação governamental.
As ULS resultam da reorganização do Serviço Nacional de Saúde (SNS), concentrando numa única entidade a gestão dos cuidados de saúde primários e hospitalares.
Nomeações reacendem debate sobre politização do SNS
O tema das nomeações políticas voltou recentemente ao debate público após declarações de Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), que defendeu a necessidade de despolitizar a gestão das unidades de saúde.
Segundo o responsável, a escolha dos dirigentes deve assentar na experiência profissional, no currículo e nas competências demonstradas, alertando que a manutenção de critérios políticos poderá continuar a gerar dificuldades de gestão no SNS.
A questão ganha especial relevância porque, quando estava na oposição, o PSD criticava aquilo que classificava como uma “politização inadmissível” das instituições de saúde.
Governo rejeita críticas da oposição
A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, rejeitou as acusações de favorecimento partidário. Em fevereiro de 2025, garantiu que “o PSD não manda” nas nomeações do SNS e recordou que os 39 conselhos de administração das ULS existentes tinham sido nomeados pelo anterior Governo socialista.
A governante argumentou ainda que o PS tem pouca legitimidade para criticar o atual Executivo nesta matéria, uma vez que procedeu à nomeação integral das administrações hospitalares durante a última fase da governação de António Costa.
Trocas diretas entre dirigentes próximos do PS e do PSD
Em vários casos, as mudanças traduziram-se na substituição de dirigentes identificados com o PS por responsáveis ligados ao PSD.
Entre as 26 administrações nomeadas pelo atual Governo, oito foram exoneradas antes de terminarem os respetivos mandatos. Segundo informações divulgadas pela Direção Executiva do SNS, existem ainda seis administrações que aguardam decisão sobre eventual recondução ou substituição.
Autarcas, ex-deputados e dirigentes partidários entre os escolhidos
Entre os novos presidentes das ULS encontram-se diversas figuras com percurso político relevante.
Miguel Abrunhosa, escolhido para liderar a ULS do Nordeste, presidia à concelhia do PSD de Bragança e foi vereador no município durante vários anos. Já José Luís Gaspar deixou a presidência da Câmara Municipal de Amarante antes de concluir o seu último mandato para assumir a liderança da ULS do Tâmega e Sousa.
Também Luís Vales, atual presidente da ULS do Médio Ave, foi deputado à Assembleia da República pelo PSD e desempenhou funções de direção partidária durante a liderança de Pedro Passos Coelho.
Outros casos incluem Carlos Mateus Costa Gomes, candidato do PSD à Câmara de Arraiolos nas autárquicas de 2025, e Rita Figueiredo, militante social-democrata que assumiu a presidência da ULS da Guarda.
Experiência profissional varia entre os nomeados
Os perfis dos novos dirigentes apresentam diferenças significativas ao nível da experiência profissional.
Alguns administradores possuem um longo percurso na gestão hospitalar, como Américo Afonso, na ULS de Braga, ou Tiago Botelho, no Algarve.
Outros chegam aos cargos com experiência sobretudo nos cuidados de saúde primários ou na administração pública local. Existem ainda casos de dirigentes cuja formação académica e experiência profissional não estavam diretamente ligadas à gestão da saúde antes da nomeação.
Apesar das diferenças de percurso, todas as nomeações receberam parecer favorável da Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública (CReSAP).
Oito presidentes sem ligações conhecidas aos partidos do Governo
Nem todas as nomeações efetuadas pelo Executivo apresentam ligações públicas à AD.
Entre os oito presidentes sem relação conhecida com PSD ou CDS encontram-se Francisco Maio Matos, nomeado para a ULS de Coimbra, Isabel Aldir, escolhida para a ULS de Lisboa Ocidental, e Nelson Pereira, que assumiu a liderança da ULS de Matosinhos.
Há ainda o caso de António Sequeira, presidente da ULS de Viseu Dão-Lafões, que teve anteriormente ligações ao Partido Socialista, tendo sido deputado municipal eleito pelos socialistas em Coimbra.
Mudanças podem continuar
As alterações nas administrações hospitalares poderão não estar concluídas. Dados divulgados pela Direção Executiva do SNS indicam que existem atualmente seis administrações de ULS à espera de decisão quanto à sua continuidade.
Caso se confirmem novas substituições, o número de administrações alteradas pelo Governo poderá aumentar, prolongando um debate que continua a dividir responsáveis políticos e especialistas sobre o peso dos critérios partidários na gestão do Serviço Nacional de Saúde.