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Mais de 91% das Unidades de Saúde Familiar registam falhas informáticas

Mais de 91% das Unidades de Saúde Familiar (USF) em Portugal registaram três ou mais episódios de falhas informáticas no último ano. Os problemas estão a comprometer a qualidade dos cuidados de saúde e podem colocar em risco a segurança dos utentes, alerta a Associação Nacional de Unidades de Saúde Familiar (USF-AN). Os dados constam…

Mais de 91% das Unidades de Saúde Familiar registam falhas informáticas

Mais de 91% das Unidades de Saúde Familiar (USF) em Portugal registaram três ou mais episódios de falhas informáticas no último ano. Os problemas estão a comprometer a qualidade dos cuidados de saúde e podem colocar em risco a segurança dos utentes, alerta a Associação Nacional de Unidades de Saúde Familiar (USF-AN).

Os dados constam do relatório «O Momento Atual da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários em Portugal 2025/2026», que é apresentado esta sexta-feira, 16 de outubro, no 17.º Encontro Nacional das USF, em Gondomar, no distrito do Porto. O estudo reúne as respostas de 541 coordenadores de unidades de saúde familiar.

De acordo com o documento, todas as unidades que participaram no inquérito tiveram pelo menos um episódio de indisponibilidade das aplicações informáticas. Em 91,1% dos casos, as falhas ocorreram três ou mais vezes ao longo do ano.

A situação é particularmente preocupante em algumas unidades: 15,7% registaram mais de 50 episódios de indisponibilidade. Além disso, em 15,7% das USF, a reposição do acesso aos sistemas demorou mais de um dia.

O impacto na prestação de cuidados é generalizado. Segundo o relatório, 98,7% dos coordenadores afirmam que as falhas informáticas prejudicam a qualidade dos serviços prestados, o valor mais elevado da série de estudos.

«É trabalhar no escuro», alerta responsável

André Biscaia, presidente da USF-AN e coordenador do estudo, considera que os problemas ultrapassam largamente os constrangimentos técnicos.

«Uma falha informática não é só uma falha informática, é também uma situação de risco clínico para o utente e um risco para o profissional», alertou, em declarações à agência Lusa.

O responsável explica que a crescente informatização dos cuidados de saúde primários tornou os profissionais fortemente dependentes dos sistemas digitais. Quando estes deixam de funcionar, os médicos e enfermeiros podem ficar sem acesso à informação clínica dos utentes, ter dificuldades em consultar exames e enfrentar limitações na emissão de receitas e no registo dos atos médicos.

A ausência de alternativas em papel agrava o problema, podendo obrigar os profissionais a trabalhar sem acesso a informação essencial ou a adiar procedimentos até à recuperação dos sistemas.

Falta de material básico afeta mais de 82% das unidades

O relatório identifica também dificuldades no fornecimento de materiais indispensáveis à atividade diária dos centros de saúde.

Durante o último ano, 82,6% das USF registaram faltas de material básico. Em 22,7% das unidades, essas falhas ocorreram mais de dez vezes; em 31,1%, verificaram-se entre três e dez vezes.

A reposição dos materiais também demora: em 68,6% dos casos, foi necessário esperar 48 horas ou mais para receber os produtos em falta.

Entre os materiais afetados encontram-se artigos para pensos, alguns medicamentos, vacinas e outros consumíveis necessários ao funcionamento regular das unidades.

André Biscaia considera que estas situações perturbam a atividade assistencial e contribuem para a insatisfação dos profissionais e dos utentes.

Falhas na aplicação eVacinas preocupam profissionais

O estudo destaca ainda os problemas registados na aplicação informática eVacinas, numa altura em que decorre a campanha de vacinação contra a gripe.

Segundo o presidente da USF-AN, a aplicação apresenta períodos de lentidão e situações em que deixa de funcionar, dificultando o trabalho dos enfermeiros.

Estas falhas podem tornar mais difícil confirmar se uma pessoa já foi vacinada, consultar informação relevante ou verificar eventuais contraindicações antes da administração de uma vacina.

A avaliação da aplicação também piorou significativamente. A satisfação dos profissionais com a eVacinas caiu de 61,9% para 43,7%, uma descida de 18,2 pontos percentuais.

A associação admite que a introdução da plataforma eVacinas 2.0, em abril de 2026, poderá estar relacionada com a deterioração da avaliação, embora ressalve que o estudo não estabelece diretamente essa relação.

Estudo revela dificuldades persistentes nos cuidados primários

O relatório da USF-AN evidencia problemas que continuam a afetar o funcionamento das unidades de saúde familiar, tanto ao nível dos sistemas informáticos como dos recursos materiais.

Os resultados são particularmente relevantes porque os cuidados de saúde primários constituem, para muitos utentes, a principal porta de entrada no Serviço Nacional de Saúde.

A associação alerta para a necessidade de melhorar a fiabilidade das aplicações, acelerar a resolução das falhas e garantir o fornecimento atempado de materiais essenciais, de forma a reduzir os constrangimentos no atendimento e assegurar a qualidade e a segurança dos cuidados prestados à população.

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