A Câmara Municipal de Braga está a acompanhar com atenção o processo de reativação da Mina da Borralha, em Montalegre, devido às possíveis implicações na qualidade da água do rio Cávado, de onde é captada água para abastecimento do concelho.
A preocupação foi assumida pelo presidente da Câmara de Braga, João Rodrigues, na reunião do executivo municipal, depois de o vereador Filipe Aguiar ter revelado que a AGERE manifestou à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) “sérias preocupações” relativamente aos possíveis efeitos da exploração mineira na qualidade da água.
O autarca garantiu, contudo, confiança na forma como atualmente são avaliados e acompanhados os projetos mineiros. “Minas e tudo o que delas emana é tratado” de forma diferente nos dias de hoje, afirmou João Rodrigues, assegurando que o município permanecerá “atento” e fará “valer a sua voz” através dos canais próprios.
“Não temos de achar que vai acontecer, porque, se não, a mina não tinha sido licenciada”, afirmou o presidente da Câmara, citado após a reunião do executivo. Ao mesmo tempo, garantiu que o município quer que “tudo seja controlado” e “fiscalizado”, de modo a evitar consequências indesejadas para os recursos hídricos.
A preocupação de Braga está relacionada com a localização da futura exploração e com a importância do Cávado para o abastecimento público. A própria documentação de planeamento dos recursos hídricos da região já tinha identificado, em anos anteriores, a necessidade de avaliar se uma eventual reativação das minas da Borralha poderia afetar a qualidade da água captada na Venda Nova.
Mina vai explorar tungsténio, cobre e estanho
O projeto é promovido pela Minerália – Minas, Geotecnia e Construções e prevê a exploração subterrânea de tungsténio, com produção adicional de concentrados de cobre e estanho. A exploração deverá prolongar-se por cerca de 15 anos, segundo o projeto apresentado pela empresa.
A Agência Portuguesa do Ambiente emitiu, em janeiro deste ano, uma decisão favorável condicionada ao projeto. O processo prevê a apresentação de estudos e elementos adicionais, o cumprimento de medidas de minimização e a implementação de programas de monitorização ambiental.
A preocupação com os recursos hídricos não é, contudo, nova. Durante a consulta pública do Estudo de Impacte Ambiental, realizada entre outubro e novembro de 2025, a captação de água para abastecimento público na barragem da Venda Nova, localizada a jusante da futura exploração, esteve entre as questões levantadas relativamente ao projeto. Foram registadas 653 participações no processo de consulta pública.
Empresa garante reutilização da água
A Minerália tem procurado afastar os receios relacionados com o consumo e a descarga de água. A empresa garante que a exploração será realizada com água “100% reciclada”, sem captação em rios, barragens ou aquíferos, e que não estão previstas descargas de água industrial no ambiente.
Segundo a informação disponibilizada pela promotora, a água proveniente da mina será tratada e reutilizada num circuito fechado. Está ainda prevista a construção de estruturas para retenção de águas pluviais e de duas estações de tratamento de águas residuais. O projeto não prevê captações na ribeira de Amiar.
A empresa prevê ainda a recuperação ambiental de áreas associadas à antiga exploração mineira, incluindo escombreiras e zonas envolventes da ribeira de Amiar.
As antigas Minas da Borralha começaram a funcionar em 1903 e encerraram em 1986, tendo sido um dos principais centros de exploração de volfrâmio em Portugal. A Minerália assinou em 2021 um contrato de concessão com o Estado para a exploração mineira subterrânea.
O processo continua, entretanto, a suscitar contestação ambiental. Em junho, a Associação Povo e Natureza do Barroso anunciou uma ação judicial relacionada com a Declaração de Impacte Ambiental, apontando a sensibilidade ambiental da área, integrada na Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés e situada nas proximidades do Parque Nacional da Peneda-Gerês.
Para Braga, a questão passa agora por acompanhar a evolução do projeto e garantir que os mecanismos de controlo e monitorização previstos são efetivamente cumpridos. A autarquia diz não partir do princípio de que haverá impacto negativo, mas deixa claro que estará vigilante face a uma exploração situada numa bacia hidrográfica que tem importância direta para o abastecimento de água do concelho.



Deixe um comentário
Tem de iniciar a sessão para publicar um comentário.