Bruno Veloso em exclusivo ao VOX: “Já não reconheço o CHEGA”

Depois de ter anunciado publicamente o seu afastamento do CHEGA e de ter afirmado que deixou de reconhecer os princípios que estiveram na génese do partido, Bruno Veloso aceitou responder às questões do Semanário VOX sobre as razões da sua decisão.

Antigo dirigente da Juventude CHEGA em Braga, Bruno Veloso traça um retrato crítico da evolução interna do partido, apontando aquilo que considera ser um afastamento dos valores da meritocracia, da transparência e da proximidade às bases que, na sua perspetiva, marcaram a fase inicial do projeto político.

Nesta entrevista, aborda as eleições para a Distrital de Braga, comenta a atual liderança local e nacional do partido, explica as divergências políticas que o levaram a ponderar a desfiliação e partilha as preocupações que diz ter relativamente ao rumo estratégico do CHEGA.

As opiniões expressas nesta entrevista são da exclusiva responsabilidade do entrevistado e refletem a sua interpretação dos acontecimentos e da realidade interna do partido.

No seu comunicado afirma que “a causa se perdeu”. Em concreto, o que mudou no CHEGA desde a sua entrada no partido até aos dias de hoje? Refere igualmente uma falta de coerência entre aquilo que é dito e aquilo que é feito. Pode indicar exemplos concretos dessa incoerência?

O partido nasceu como um movimento focado na meritocracia, na transparência e na defesa intransigente das bases. Hoje, transformou-se naquilo que sempre criticou: uma máquina muito focada em jogos de poder internos e lógicas de aparelho. O maior exemplo de incoerência é o afastamento dos militantes. Criticamos o clientelismo nos outros partidos, mas internamente assistimos ao sufoco de vozes críticas e à recompensa da subserviência em detrimento da competência.

A sua decisão de não apoiar qualquer candidatura à Distrital de Braga significa que não se revê em nenhuma das listas ou nos protagonistas que as integram? Considera que as eleições para a Comissão Política Distrital de Braga estão a ser marcadas por divisões profundas dentro do partido? Nas últimas semanas várias figuras ligadas ao partido em Braga e noutros concelhos têm tornado públicas divergências internas. Acredita que existe uma crise de liderança dentro do CHEGA Braga?

Não apoiar nenhuma candidatura é um ato de objeção de consciência. Nenhuma das listas ou protagonistas atuais na Distrital representa, no meu entendimento, o projeto original em que me revi. As eleições em Braga mostram fraturas expostas. Há uma clara crise de liderança local; quando o debate interno passa do confronto de ideias para o ataque pessoal e a exclusão de militantes válidos, o projeto regional entra em rutura.

Durante vários anos trabalhou de perto com Filipe Melo, que o nomeou para liderar a Juventude CHEGA Braga. Como avalia atualmente o papel de Filipe Melo no partido e no distrito? Mantém uma relação de proximidade com Filipe Melo ou também existem divergências políticas entre ambos? Considera que Filipe Melo continua a representar os valores que o levaram a aderir ao CHEGA?

Reconheço a oportunidade que me deu no passado para liderar a Juventude e, a nível pessoal, agradeço o apoio e os conselhos que recebi. Contudo, hoje existe um evidente distanciamento político. O projeto distrital fechou-se sobre si mesmo. Além disso, considero incompatível com as minhas convicções políticas o facto de o deputado e os seus vice-presidentes estarem ligados ao IPC – Instituto de Política Conservadora. A cooperação deste instituto com redes globais de think-tanks — como o Herzl Institute, o Danube Institute e o Legatum/Prosperity Institute.

Quando afirma que deixou de reconhecer os princípios fundacionais na estrutura distrital e na direção nacional, está também a incluir André Ventura nessa crítica? Como vê atualmente a atuação da direção nacional do CHEGA? Ainda acredita que o CHEGA pode recuperar os princípios que diz terem sido abandonados?

A minha crítica foca-se na atuação da Direção Nacional. O centralismo da estrutura nacional validou ou ignorou os atropelos cometidos nas estruturas locais, incluindo Braga. Quem assiste em silêncio à perda de princípios nas bases afasta-se dos valores fundacionais do partido.

A minha divergência com a Direção Nacional vai muito além da gestão de aparelhos. Olhando para o panorama atual, coloco publicamente a hipótese e a preocupação de ver grandes nomes da liderança nacional poderem estar próximos ou alinhados com o sionismo — uma ideologia com a qual discordo profundamente por entender que pode colidir com a soberania nacional. Levanto esta questão como uma reflexão política: existirá o risco de o partido se expor a lóbis internacionais? No momento formal da minha desfiliação, partilharei as dúvidas, os indícios e as leituras políticas que me levam a temer este caminho e a questionar esta teia de influências. O partido está demasiado blindado pelo seu próprio aparelho para conseguir regenerar-se a partir de dentro.

O seu afastamento definitivo da política está relacionado apenas com o CHEGA ou sente uma desilusão mais ampla relativamente à atividade política em Portugal? Está a ponderar a desfiliação por discordância política ou sente que já não existe espaço para si dentro do partido? Tem sido contactado por dirigentes ou militantes após a divulgação do comunicado? Que reações recebeu? A sua saída poderá ser seguida por outros militantes que partilham da mesma insatisfação?

A desfiliação é o passo natural quando o espaço de debate e discordância saudável deixa de existir. A minha desilusão prende-se com a forma como este projeto se desvirtuou. Acredito que a minha saída poderá ser acompanhada por outros membros, ou afastamento das dinâmicas locais, pois a insatisfação não é individual, é geracional e estrutural.

Se pudesse transmitir uma mensagem aos militantes do CHEGA Braga que acompanham este processo eleitoral interno, qual seria? Existe alguma informação ou reflexão que considere importante acrescentar e que não tenha sido abordada nestas perguntas?

Apelo aos militantes para que não se deixem instrumentalizar por guerras de poder e para que analisem criticamente se a estrutura atual corre, ou não, o risco de ceder a agendas externas. É legítimo questionarmos se existe a possibilidade de o partido estar progressivamente mais alinhado a correntes como o sionismo, em detrimento do patriotismo puro.

É fundamental que os militantes saibam distinguir conceitos para evitar equívocos: ser anti-sionista significa discordar de uma linha de pensamento político e geopolítico específica; não tem qualquer relação com o anti-semitismo, que consiste na discriminação contra um povo ou uma religião. A minha reflexão é estritamente de âmbito político, ideológico e soberano.

Votem em consciência neste processo interno. Exijam transparência e avaliem por vós próprios se o partido mantém a coerência nacionalista que prometeu ao país ou se há sinais de cedência a interesses estrangeiros nos bastidores.

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