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Procuradores arrasam decisão dos juízes no caso Football Leaks

Procuradores contestam decisão que absolveu o criador do Football Leaks de 241 crimes informáticos e criticam duramente o coletivo de juízes O Ministério Público (MP) apresentou recurso para o Tribunal da Relação de Lisboa da decisão que, em abril deste ano, absolveu Rui Pinto de 241 crimes informáticos no âmbito de um dos processos relacionados…

Procuradores arrasam decisão dos juízes no caso Football Leaks

Procuradores contestam decisão que absolveu o criador do Football Leaks de 241 crimes informáticos e criticam duramente o coletivo de juízes

O Ministério Público (MP) apresentou recurso para o Tribunal da Relação de Lisboa da decisão que, em abril deste ano, absolveu Rui Pinto de 241 crimes informáticos no âmbito de um dos processos relacionados com o caso Football Leaks. No documento agora entregue, os procuradores Vera Camacho e André Ribeiro da Silva dirigem críticas particularmente severas ao coletivo de juízes responsável pelo acórdão, acusando-o de ter partido de uma “visão profundamente desconfiada da atuação do Ministério Público”.

O recurso marca mais um capítulo de um dos processos judiciais mais mediáticos da última década em Portugal, envolvendo Rui Pinto, o informático português que ganhou notoriedade internacional após a divulgação de milhões de documentos confidenciais relacionados com o futebol profissional, transferências de jogadores, contratos, alegados esquemas de evasão fiscal e outras informações sensíveis.

Uma absolvição que gerou forte controvérsia

A decisão agora contestada foi proferida pelo coletivo constituído pelos juízes Tânia Loureiro, Catarina Cortez Silva e João Rodrigues. Na sentença, o tribunal considerou que a forma como o Ministério Público conduziu a investigação e procedeu à separação dos diferentes processos relacionados com Rui Pinto violou princípios fundamentais do Estado de Direito.

Segundo os magistrados judiciais, a fragmentação dos processos terá originado uma espécie de perseguição penal injustificada ao arguido, colocando em causa direitos fundamentais constitucionalmente protegidos.

No acórdão, os juízes chegaram mesmo a afirmar que estavam em causa “violações dos princípios fundamentais e absolutos da dignidade da pessoa humana e da República Portuguesa enquanto Estado de Direito Democrático e do direito fundamental à tutela jurisdicional efetiva, traduzida no direito a obter uma decisão em prazo razoável e mediante processo equitativo”.

Esta interpretação foi determinante para a absolvição de Rui Pinto relativamente aos 241 crimes informáticos que lhe eram imputados.

Ministério Público rejeita tese de perseguição penal

No recurso agora apresentado, o Ministério Público procura desmontar integralmente a argumentação utilizada pelo tribunal de primeira instância.

Os procuradores sustentam que a separação dos processos foi legal, necessária e proporcional, tendo sido efetuada em conformidade com os mecanismos processuais previstos na lei portuguesa.

Segundo o MP, a decisão do tribunal incorreu num erro de julgamento ao declarar inconstitucional essa separação processual.

“Os diferentes processos instaurados tinham por objeto conjuntos distintos de acessos informáticos, vítimas diferentes, contextos autónomos e condutas temporalmente diferenciadas, ainda que relacionados com uma mesma estratégia criminosa global”, defendem os magistrados.

A posição do Ministério Público assenta na ideia de que os vários processos não correspondiam a uma duplicação artificial de acusações, mas antes à necessidade prática de investigar factos diferentes, envolvendo vítimas distintas e ocorrências verificadas em momentos diversos.

O risco para futuras investigações de criminalidade informática

Uma das passagens mais relevantes do recurso prende-se com as consequências que o Ministério Público considera poderem resultar da interpretação adotada pelo tribunal.

Os procuradores alertam que a posição assumida na sentença poderá criar obstáculos significativos à investigação de crimes complexos, sobretudo em áreas como a criminalidade organizada, a cibercriminalidade e os crimes transnacionais.

“A interpretação acolhida pelo tribunal recorrido compromete gravemente a investigação de criminalidade complexa, organizada e informática, em que a descoberta progressiva de novos factos e vítimas é frequente e em que a autonomização processual constitui muitas vezes um instrumento indispensável de gestão processual e de preservação da eficácia da ação penal”, refere o recurso.

Para o Ministério Público, impedir ou limitar a possibilidade de autonomizar processos à medida que surgem novos elementos de prova poderá comprometer a eficácia das investigações futuras e dificultar o combate a fenómenos criminosos cada vez mais sofisticados.

A polémica questão da colaboração de Rui Pinto

Outro dos pontos centrais do recurso diz respeito à alegada colaboração de Rui Pinto com as autoridades.

Ao longo dos últimos anos, o criador do Football Leaks foi frequentemente apresentado como denunciante ou colaborador da justiça, sobretudo após ter fornecido informações que contribuíram para investigações de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais em vários países europeus.

Contudo, o Ministério Público rejeita a ideia de que a prova obtida nos processos portugueses tenha dependido da colaboração do arguido.

Segundo os procuradores, a identificação de Rui Pinto e a recolha dos elementos probatórios resultaram essencialmente do trabalho desenvolvido pelas autoridades judiciais e policiais.

“Os autos demonstram que a identificação de Rui Pinto, as diligências internacionais, as apreensões, os exames periciais e a recolha de prova digital decorreram de investigação própria da Polícia Judiciária e do Ministério Público”, sublinham.

O recurso acrescenta ainda que é “incorreto afirmar que a obtenção da prova dependeu decisivamente da colaboração do arguido”.

Quem é Rui Pinto?

Rui Pinto tornou-se uma figura conhecida internacionalmente em 2015, quando começou a divulgar através da plataforma Football Leaks milhões de documentos internos relacionados com o mundo do futebol.

As revelações expuseram contratos de jogadores, mecanismos financeiros utilizados por clubes e empresários, acordos confidenciais e alegados esquemas de otimização fiscal envolvendo algumas das maiores figuras do futebol mundial.

Posteriormente, o português esteve também associado à divulgação dos chamados “Luanda Leaks”, um conjunto de documentos que revelou alegados esquemas financeiros envolvendo a empresária angolana Isabel dos Santos.

As fugas de informação tiveram impacto internacional e deram origem a investigações em vários países europeus.

No entanto, paralelamente ao reconhecimento recebido por organizações de transparência e combate à corrupção, Rui Pinto foi acusado de múltiplos crimes relacionados com acessos ilegítimos a sistemas informáticos, violação de correspondência e tentativa de extorsão.

Um histórico judicial complexo

Em setembro de 2023, Rui Pinto foi condenado a quatro anos de prisão com pena suspensa por vários crimes de acesso ilegítimo, violação de correspondência e outros ilícitos informáticos.

Essa condenação resultou de um dos processos derivados da investigação original ao caso Football Leaks.

A decisão agora em discussão corresponde a um segundo julgamento relacionado com outros factos e outros alegados acessos informáticos, tendo culminado na absolvição que o Ministério Público pretende agora ver revertida pela Relação de Lisboa.

O que pode acontecer a seguir?

Com a apresentação do recurso, caberá agora ao Tribunal da Relação de Lisboa analisar os argumentos apresentados pelo Ministério Público e decidir se mantém ou altera a decisão da primeira instância.

Caso os desembargadores concordem com os fundamentos invocados pelos procuradores, poderão determinar a reformulação da decisão ou mesmo ordenar nova apreciação dos factos.

Entretanto, a situação judicial de Rui Pinto está longe de ficar encerrada. Segundo informações conhecidas, continua a decorrer uma terceira investigação no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), relacionada com outros factos ainda sob análise.

Dessa forma, mesmo após a recente absolvição, o informático português poderá voltar a sentar-se no banco dos arguidos, mantendo-se aberto um dos processos judiciais mais complexos e mediáticos da justiça portuguesa contemporânea.

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