Água chega à Ribeira do Neiva, mas o saneamento continua à espera em Vila Verde
Vila Verde anuncia mais 5 milhões para levar água à Ribeira do Neiva, mas saneamento continua a ser promessa adiada
O Município de Vila Verde anunciou um investimento superior a cinco milhões de euros no reforço do abastecimento público de água na Bacia da Ribeira do Neiva, uma obra que deverá beneficiar cerca de 2.588 habitantes, através da instalação de 50,8 quilómetros de condutas e 948 ramais domiciliários. A intervenção abrange as freguesias de Duas Igrejas, Goães, Pedregais, Azões, Godinhaços, Aboim da Nóbrega e Gondomar, entre outras zonas daquela bacia hidrográfica.
A autarquia apresenta o investimento como uma resposta estrutural a necessidades antigas da população, sobretudo em territórios de baixa densidade, marcados por povoamento disperso e maior dificuldade técnica na execução de redes públicas. No entanto, o anúncio volta a colocar em evidência um problema que atravessa sucessivos mandatos social-democratas em Vila Verde: a persistente demora na universalização de serviços básicos como a água pública e, sobretudo, o saneamento.
A questão não é nova. Em 2017, a Câmara Municipal de Vila Verde anunciava investimentos próximos de dois milhões de euros em saneamento, integrados num plano global de seis milhões, afirmando que essas obras permitiriam atingir, “nos próximos dois anos”, metas próximas dos 75% de cobertura das habitações vila-verdenses. Dois anos depois, em 2019, o próprio PSD de Vila Verde voltou a defender que a generalização do saneamento deveria ser prioritária e referiu um investimento global superior a sete milhões de euros que iria, “a breve trecho”, levar saneamento básico a cerca de 75% das residências do concelho.
Passados vários anos, a promessa continua a surgir no discurso político como objetivo por cumprir. Em 2024, a Câmara voltou a anunciar novas obras de saneamento, desta vez superiores a um milhão de euros, para alargar a rede em mais 12,5 quilómetros, abrangendo freguesias como Moure, Marrancos, Escariz, Cervães, Cabanelas, Oleiros, Soutelo, Turiz, Loureira, Gême, Sabariz, Lanhas, Sande, Dossãos, Pico de São Cristóvão, Pedregais, Azões, Lage e Freiriz.
A presidente da Câmara, Júlia Rodrigues Fernandes, reconheceu então que a dispersão do povoamento e a geomorfologia irregular do território impõem “um esforço acrescido em termos financeiros e de recursos”, mas reafirmou a defesa da universalização do acesso ao saneamento básico. Esse argumento tem sido repetido ao longo dos anos pelos executivos liderados pelo PSD, que apontam as características geográficas do concelho como uma das principais razões para a lentidão na expansão das redes.
Contudo, para a oposição, o problema já não pode ser explicado apenas pela dificuldade técnica. A Iniciativa Liberal acusou recentemente o executivo social-democrata de falhar compromissos antigos, recordando que, em 2009, o PSD prometera atingir 75% de cobertura de saneamento. Segundo os dados apresentados pelos liberais, 15 anos depois a cobertura efetiva não ultrapassaria os 45%.
Este número, embora surja no debate político local e deva ser lido como dado apresentado por um partido da oposição, contrasta fortemente com as metas sucessivamente anunciadas pelo PSD e pela Câmara Municipal ao longo dos anos. A ERSAR, entidade reguladora do setor das águas e resíduos, disponibiliza indicadores municipais sobre saneamento com dados validados relativos a 2023, mas a consulta pública agregada nem sempre permite uma leitura simples e imediata da cobertura efetiva por concelho sem recurso às fichas e bases específicas do regulador.
O novo investimento na Ribeira do Neiva é, por isso, relevante, mas não apaga a questão política central: Vila Verde continua a chegar tarde a serviços que, noutros territórios, são considerados básicos há décadas. Para muitas famílias, a água da rede pública e o saneamento não são obras de modernização; são condições mínimas de dignidade, saúde pública, valorização ambiental e igualdade territorial.
A insistência da Câmara em anunciar novas empreitadas confirma que o problema existe e continua por resolver. A diferença está no modo como cada força política o interpreta. Para o executivo PSD, trata-se de uma resposta faseada, condicionada pela dimensão, dispersão e orografia do concelho. Para os críticos, trata-se de um ciclo prolongado de promessas repetidas, metas adiadas e anúncios sucessivos que não se traduziram, até hoje, numa cobertura verdadeiramente universal.
O caso do saneamento é particularmente sensível. Ao contrário de outras obras públicas mais visíveis, como estradas, equipamentos ou requalificações urbanas, as redes de águas residuais têm impacto direto na saúde pública, na proteção dos solos e linhas de água, na qualidade de vida das populações e na atratividade do território. Num concelho com forte componente rural e ambiental, a ausência de rede pública em muitas zonas prolonga a dependência de soluções individuais, fossas e sistemas alternativos, nem sempre ideais do ponto de vista ambiental.
A nova obra de abastecimento de água na Ribeira do Neiva deve, por isso, ser vista em duas dimensões. Por um lado, representa um avanço concreto para populações que há muito aguardam ligação à rede pública. Por outro, reabre uma pergunta inevitável: quantos anos mais serão necessários para que todos os vilaverdenses tenham acesso pleno a água e saneamento?
Num concelho governado há décadas pelo PSD, a resposta já não pode ficar apenas no anúncio de novas empreitadas. Exige calendário, execução, transparência nos números e prestação de contas sobre as metas que foram sendo prometidas. Porque, para quem continua sem saneamento ou sem ligação à rede pública de água, cada novo anúncio só terá valor quando a torneira abrir e a ligação estiver feita.