Feitor volta a atacar o CHEGA, mas carta aberta expõe sobretudo o seu próprio ziguezague político

Fernando Silva, conhecido em Vila Verde por “Feitor”, voltou às redes sociais para ajustar contas com o CHEGA, partido pelo qual foi eleito vereador e do qual acabaria afastado. Numa carta aberta dirigida aos cidadãos de Vila Verde, o antigo autarca acusa o partido de falta de democracia interna, perseguição política e incoerência na escolha de lideranças.

A missiva, porém, surge mais como novo capítulo de um percurso político marcado por ruturas, acusações públicas e reposicionamentos sucessivos do que como uma verdadeira novidade política.

Feitor recorda que foi militante, presidente da concelhia e vereador eleito pelo CHEGA, mas omite que a sua trajetória recente ficou marcada por uma saída ruidosa, pela passagem a independente e, mais tarde, por uma candidatura autárquica fora do partido, com apoio do CDS-PP. Depois de ter sido rosto do CHEGA em Vila Verde, passou a apresentar-se como vítima da estrutura que ajudou a construir.

Na carta, o antigo vereador diz ter denunciado problemas internos, concelhias sem legitimidade eleitoral, distritais sem eleições e dificuldades do partido perante o Tribunal Constitucional. Também volta a apontar o dedo a André Ventura e a Filipe Melo, recuperando conflitos que há muito contaminam a política local.

O problema para Feitor é que a insistência neste discurso de rutura começa a soar menos a denúncia e mais a ressentimento político. Depois de abandonar o CHEGA, tentar afirmar-se como independente e procurar espaço noutros apoios partidários, o antigo vereador continua preso ao partido que diz ter deixado para trás.

A própria carta reforça essa contradição: Feitor garante que não escreve por ressentimento pessoal, mas dedica grande parte do texto a relatar a sua expulsão, os convites que diz ter recebido e a forma como considera ter sido tratado. O resultado é uma intervenção que pretende apresentar-se como defesa da democracia interna, mas que acaba por expor a dificuldade do antigo autarca em encerrar o capítulo CHEGA.

Também a referência a um alegado convite para regressar ao partido e apoiar uma candidatura à Distrital de Braga é usada por Feitor como prova de que teria razão. Ainda assim, sem documentos apresentados publicamente nessa mesma publicação, a acusação fica dependente apenas da sua palavra.

Em Vila Verde, onde o percurso de Feitor já passou por apoios socialistas, eleição pelo CHEGA, independência e aproximação ao CDS-PP, a nova carta aberta dificilmente apaga a imagem de instabilidade política que o acompanha. Pelo contrário: confirma que o antigo vereador continua a fazer da guerra interna no CHEGA o centro da sua intervenção pública.

A democracia interna dos partidos é matéria séria. Mas, no caso de Fernando Feitor, a denúncia chega embrulhada num histórico de mudanças, ressentimentos e combates pessoais que enfraquecem a força política da mensagem.

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