PS acelera agenda ética após buscas e vai constituir-se assistente no processo Imergente
Carneiro quer levar propostas à Comissão Nacional antes do Verão. Discurso oficial é de cooperação com a Justiça, mas dirigentes socialistas questionam, em privado, o momento e a dimensão da operação.
O Partido Socialista vai acelerar a implementação de medidas internas de reforço ético na sequência das buscas realizadas à sua sede no âmbito da Operação Imergente e prepara-se para requerer a constituição como assistente no processo judicial. A decisão surge numa altura em que a direção liderada por José Luís Carneiro procura demonstrar firmeza perante suspeitas que envolvem autarcas, funcionários e antigos colaboradores do partido.
Segundo fontes próximas da liderança socialista, Carneiro pretende antecipar um conjunto de propostas já previstas na moção aprovada no congresso do partido, realizado no final de março, e levá-las à próxima Comissão Nacional, antes das férias de Verão.
Entre as medidas em análise está a criação de um Código de Ética dos Militantes e Eleitos Socialistas, que estabelecerá regras de conduta tanto na vida interna do partido como no exercício de cargos de nomeação partidária. O documento deverá integrar os Estatutos do PS e ser supervisionado por uma Comissão de Ética. Está igualmente prevista a criação de um canal interno de denúncias.
Dirigentes socialistas admitem que as buscas tiveram impacto na imagem do partido e defendem uma resposta rápida e rigorosa. Um responsável ouvido neste contexto considera necessário um “escrutínio interno mais apurado”, sublinhando a importância de agir com celeridade perante quaisquer indícios de irregularidades.
Apesar de a agenda ética já constar das prioridades da liderança socialista, a operação judicial levou à aceleração do processo. Fontes próximas do secretário-geral reconhecem que o caso “coloca grande exigência” ao partido e reforça a necessidade de demonstrar compromisso com padrões elevados de transparência e integridade.
PS quer acompanhar investigação
Paralelamente, o PS vai requerer a constituição como assistente no processo da Operação Imergente. Este estatuto permitirá ao partido acompanhar o desenvolvimento do inquérito e intervir processualmente através dos seus representantes legais, em articulação com o Ministério Público.
Oficialmente, a direção socialista apresenta esta decisão como uma demonstração de colaboração com a Justiça. Ainda assim, a opção não deixa de ter significado político, uma vez que não é habitual um partido político assumir esse papel num processo que envolve elementos ligados à sua estrutura.
Nas primeiras reações às buscas, José Luís Carneiro adotou um tom institucional, garantindo total cooperação com as autoridades e defendendo que as entidades judiciais devem exercer as suas funções de forma autónoma.
Mal-estar interno alimenta críticas à operação
Apesar da linha oficial de colaboração, o ambiente interno no PS é marcado por forte desconforto. Em privado, vários dirigentes questionam o momento escolhido para a operação e a dimensão dos meios mobilizados pelas autoridades.
O caso ganhou visibilidade depois de Ricardo Bexiga, membro da direção socialista, ter partilhado nas redes sociais uma notícia sobre sondagens favoráveis ao PS acompanhada da frase: “Há quem não goste destas sondagens…”. A publicação acabaria por ser apagada pouco depois, com o dirigente a justificar a decisão por recear interpretações erradas.
Nos bastidores, multiplicam-se leituras que associam as buscas ao contexto político atual. Alguns dirigentes sublinham que a operação ocorre numa fase em que o PS regista uma recuperação nas sondagens e em que José Luís Carneiro tem consolidado a sua liderança.
Outros responsáveis questionam a dimensão da intervenção policial, considerando desproporcionado o número de inspetores envolvidos face aos factos investigados. Há ainda quem associe a operação à audição parlamentar do procurador-geral da República, Amadeu Guerra, realizada no mesmo dia e centrada nas conclusões de uma inspeção ao Departamento Central de Investigação e Ação Penal.
Arguidos ficaram em liberdade
As críticas internas intensificaram-se após serem conhecidas as medidas de coação aplicadas aos quatro detidos no âmbito da Operação Imergente. Duarte Moral, Rute Reimão, Rui Pedro Nascimento e Emílio Vázquez Blanco ficaram sujeitos apenas a termo de identidade e residência.
Mantém-se, contudo, a incerteza sobre a continuidade de Duarte Moral como assessor de imprensa de José Luís Carneiro. Entretanto, fontes partidárias indicam que o secretário-geral convidou o deputado Luís Graça para assumir a coordenação da comunicação política do PS.
Perante a pressão política e mediática gerada pela investigação, a liderança socialista procura agora combinar uma estratégia de colaboração institucional com a Justiça com um reforço das regras internas de transparência e ética partidária, numa tentativa de evitar que o partido fique associado a uma imagem de suspeição prolongada.