Pedro Nuno rompe o silêncio, ataca Cordeiro e reacende guerra interna no PS
Pedro Nuno mira os “taticistas” e expõe fratura com Duarte Cordeiro no PS
A relação política e pessoal entre Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro, durante anos vista dentro do PS como uma das mais sólidas, entrou numa fase de rutura aberta. O afastamento, que vinha sendo descrito nos bastidores como gradual, tornou-se agora público, com Pedro Nuno a lançar críticas diretas aos que acusa de calculismo político numa altura difícil para o partido.
A frase que marcou esse momento surgiu quando o antigo líder socialista afirmou ter “muito mais respeito por José Luís Carneiro” do que por “taticistas” que, na sua leitura, preferem esperar por um cenário mais favorável para avançar dentro do PS. A declaração foi interpretada como uma resposta direta a Duarte Cordeiro, depois de este ter recusado integrar a Comissão Política Nacional socialista, justificando a decisão com a necessidade de preservar liberdade para discordar da atual direção.
O episódio tornou visível uma distância que, segundo vários socialistas, não começou agora. Durante largos anos, Pedro Nuno e Duarte Cordeiro foram vistos quase como inseparáveis no partido. Partilhavam proximidade pessoal, estratégia e ambição política, sempre alinhados no objetivo de levar Pedro Nuno à liderança do PS. Quando esse objetivo foi finalmente alcançado, a ligação entre ambos já revelava sinais de desgaste.
De acordo com elementos próximos dos dois dirigentes, o distanciamento começou ainda antes das diretas de 2023, numa altura em que Pedro Nuno terá começado a olhar com desconfiança para a crescente afirmação política de Duarte Cordeiro. Esse processo aprofundou-se depois da saída de Pedro Nuno do Governo e consolidou-se com o reposicionamento de Cordeiro no espaço mais próximo de António Costa.
Ao longo dos últimos anos, Duarte Cordeiro reforçou a sua influência interna no partido. Liderou a Federação da Área Urbana de Lisboa entre 2018 e 2024, assumiu papéis relevantes em campanhas socialistas e tornou-se uma figura com peso próprio nas estruturas do PS. Para alguns setores, era já mais do que um aliado de Pedro Nuno. Era também um ativo político com margem para construir percurso autónomo.
A investigação judicial no âmbito da Operação Influencer, que atingiu Duarte Cordeiro quando era ministro do Ambiente, acabou por precipitar o seu afastamento da linha da frente política, precisamente no período em que Pedro Nuno chegava à liderança socialista. Apesar de ainda ter marcado presença nas diretas, a sua participação nas campanhas seguintes foi residual.
As palavras de Pedro Nuno, contudo, não ficaram limitadas a Duarte Cordeiro. As críticas acabaram por tocar também outros socialistas que têm mantido reservas em relação à atual liderança, como Fernando Medina e Mariana Vieira da Silva, mas que não avançaram para disputar o comando do partido. Em contrapartida, Pedro Nuno valorizou José Luís Carneiro por ter assumido a candidatura à liderança em momentos particularmente difíceis para o PS, no final de 2023.
Nesse contexto, o antigo secretário-geral aproveitou também para fazer uma leitura crítica do legado governativo anterior. Ao defender que, no final de 2023, o PS já tinha perdido o país, sobretudo junto de setores tradicionais como a função pública, Pedro Nuno deixou implícita uma censura ao ciclo liderado por António Costa. Ao mesmo tempo, procurou sublinhar que foi nesse ambiente adverso que decidiu avançar e disputar a liderança do partido.
Pedro Nuno quis ainda reafirmar a sua identidade política, afastando-se de qualquer deriva centrista e insistindo numa visão de esquerda assente num Estado forte, com papel central no desenvolvimento nacional e na redistribuição da riqueza. A mensagem serviu também para marcar distância em relação à atual liderança e ao rumo que entende estar a ser seguido no partido.
Apesar do regresso ao Parlamento e da nova exposição pública, o ex-líder socialista tem procurado passar a ideia de que não está numa corrida interna nem a preparar qualquer ofensiva para recuperar influência. Segundo fontes socialistas, tem dito a vários interlocutores que se considera “livre”, sem agenda definida e sem vontade de voltar a ocupar espaço de poder partidário. Ainda assim, o seu regresso coincidiu com uma intervenção política ruidosa, que reacendeu tensões antigas.
Na bancada parlamentar, Pedro Nuno Santos reapareceu esta quarta-feira com visível agitação política, depois de, nos últimos meses, se ter concentrado na empresa da família, a Tecmacal, em São João da Madeira. A movimentação à sua volta, com vários deputados socialistas a procurarem-no para conversas e cumprimentos, mostrou que continua a ser uma figura com peso simbólico no partido, mesmo que muitos considerem que a sua influência interna já não seja a de outros tempos.
Entre socialistas ouvidos nos bastidores, há quem desvalorize o impacto desta zanga pública, reduzindo-a a um acerto de contas com raízes antigas. A leitura dominante é a de que dificilmente daqui nascerá um cisma relevante no PS, até porque o espaço de poder de Pedro Nuno terá enfraquecido desde que deixou a liderança. Sem perspetiva imediata de regresso ao topo, acreditam vários dirigentes, as lealdades que outrora estruturavam o seu campo político tendem hoje a dispersar-se.
Ainda assim, a rutura com Duarte Cordeiro tem um peso particular. Não apenas pelo passado de cumplicidade entre ambos, mas porque expõe, de forma rara e frontal, como alianças antigas no PS se foram desfazendo à medida que o partido entrou numa nova fase de disputa interna, reposicionamento estratégico e luta pela sucessão de protagonismos.