Do gabinete ao enquadramento: quando o Estado paga e o ego posa

Há assessores, há adjuntos e há quem pareça viver convencido de que a função pública é uma mistura de excursão institucional com sessão fotográfica permanente.

Há pessoas que chegam ao poder para trabalhar. E há outras que chegam ao poder para aparecer. Jorge Oliveira, pelo que vai deixando nas redes sociais, parece ter escolhido a segunda via com uma devoção quase religiosa. Está em Meknès, numa feira internacional onde Portugal surge como país convidado de honra, e o que lhe sai do teclado não é propriamente contenção, discrição ou serviço público. Não. Sai-lhe uma legenda inchada de solenidade, a pedir moldura dourada: Portugal leva ao mundo “a força da sua terra”, “a excelência dos seus agricultores” e, claro, o inevitável remate de concurso de frases feitas, “Somos uma nação vibrante!!!”.

É sempre enternecedor quando um homem do gabinete confunde representação institucional com autoencenação. O problema é que isto já nem parece apenas entusiasmo patriótico de ocasião. Parece outra coisa. Parece um deslumbramento persistente com a fotografia, com o cenário, com a pose, com o privilégio de andar perto do poder e fazer disso uma narrativa pessoal. Há quem acompanhe ministros para preparar dossiers, resolver problemas, articular políticas, antecipar crises. E há quem dê a sensação de acompanhar ministros para garantir bom ângulo, legenda épica e presença digital devidamente lustrada.

O mais delicioso, nesta pequena tragédia da vaidade pública, é o contraste. Enquanto o país real luta com preços, seca, incerteza, custos de produção e os dramas bem terrenos de quem trabalha a agricultura sem filtro nem pose, há quem ache que o momento pede frases de calendário motivacional e patriotismo de catálogo. Nada contra o amor ao país. Mas convinha não confundir amor ao país com amor à própria personagem. São coisas diferentes. A primeira exige discrição e utilidade. A segunda vive de pose, exposição e aplauso fácil.

E depois há aquela irresistível superioridade de quem se julga engraçado quando é apanhado no ridículo. Depois de uma notícia publicada pelo Semanário VOX sobre o aparato à volta da deslocação, a reacção não terá sido a sobriedade de quem ocupa funções públicas. Pelo contrário. Terá sido a resposta de recreio, o sarcasmo de mesa posta, o “aqui fica o meu almoço de hoje!!!” acompanhado da graçola de serviço e do toque final “com vinho do Porto”, segundo o que o próprio escreveu no Facebook. O tom não é irrelevante. Revela muito. Revela a convicção de que tudo isto é uma brincadeira. Que o escrutínio é folclore. Que a crítica é apenas matéria-prima para mais uma piada. E que, no fundo, o cargo não obriga a grandeza, basta-lhe ligeireza.

É precisamente aqui que o retrato se compõe por inteiro. Não estamos perante a robustez silenciosa de um servidor de Estado. Estamos perante o narcisismo bem alimentado de quem parece achar que o gabinete ministerial é uma extensão da sua página de Facebook. Um lugar onde cada deslocação rende conteúdo, cada presença rende simbolismo e cada fotografia serve para fabricar importância. Não é a política a produzir imagem. É a imagem a engolir a política.

Dir-me-ão que isto é menor. Que são apenas publicações. Que toda a gente comunica. Pois comunica. Mas nem toda a gente comunica assim. Há uma diferença entre informar e encenar. Entre representar uma missão oficial e transformar essa missão num palco pessoal. Entre estar ao lado do poder e usar esse lugar para o servir ou para se servir dele. Jorge Oliveira, pelo menos no retrato público que vai construindo, parece mais empenhado em parecer indispensável do que em sê-lo.

E talvez seja esse o lado mais pobre de toda esta história. O Ministério da Agricultura devia cheirar a terra, a estratégia, a produção, a exportação, a reforma, a competência. Não devia cheirar a verniz digital e a vaidade de bastidor. Não devia dar a sensação de que, algures entre credenciais VIP e publicações inflamadas, se perdeu o sentido da medida. Quando um homem do gabinete se comporta como influencer de comitiva, o problema já não é estético. É político. Porque o poder, quando deixa de respeitar a sobriedade, começa inevitavelmente a resvalar para a caricatura.

Jorge Oliveira tem todo o direito a gostar de fotografias, de legendas grandiosas e de almoços com pose. O que já custa aceitar é que isso passe por densidade institucional. Um cargo público não ganha seriedade por circular com ar importante, nem por escrever três exclamações patrióticas a partir de Marrocos. Ganha-a quando mostra substância. Ganha-a quando percebe que estar próximo do ministro não faz de ninguém estadista por osmose. E perde-a quando tudo começa a parecer uma romaria de ego com credencial ao peito.

No fim de contas, é talvez isto que mais incomoda: a vulgaridade do pequeno deslumbramento. O país tem agricultores. O Governo devia ter gente à altura deles. Não precisava de mais um homem fascinado com o próprio enquadramento.

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