Martinho Gonçalves, o deputado vila-verdense mais influente de sempre

Antigo deputado à Assembleia da República, advogado, ex-dirigente socialista local e antigo líder da bancada do PS na Assembleia Municipal de Vila Verde, Martinho Gonçalves tornou-se uma das figuras mais frontais – e divisivas – do socialismo no distrito de Braga. Da militância institucional à crítica aberta contra a própria federação distrital, o seu percurso conta também a história das dificuldades do PS em afirmar-se num concelho tradicionalmente dominado pela direita.

Martinho Gonçalves é uma das figuras mais persistentes do Partido Socialista em Vila Verde. O seu nome completo é Manuel Martinho Pinheiro dos Santos Gonçalves, nasceu a 1 de Janeiro de 1958, é advogado e foi deputado à Assembleia da República pelo PS, eleito pelo círculo de Braga na VII Legislatura, segundo a ficha oficial do Parlamento.

Com Armando Marinho, “o maior dos cantadores ao desafio” segundo Martinho Gonçalves

A sua carreira pública não se limitou ao Parlamento. Em 2009, foi nomeado chefe do Gabinete do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, Laurentino Dias, por despacho publicado em Diário da República, com efeitos a 31 de Outubro desse ano.

Em Vila Verde, construiu uma presença política prolongada: foi presidente da Concelhia do PS, candidato à Câmara Municipal, candidato à Assembleia Municipal e líder da bancada socialista nesse órgão. Em 2024, a candidatura de Victor Hugo Salgado à Federação Distrital do PS de Braga descreveu Martinho Gonçalves, Luís Filipe Silva e José Morais como “rostos mais visíveis das últimas décadas do PS Vila Verde”, lembrando que tinham sido presidentes da Concelhia local, candidatos à Câmara e titulares de outras funções relevantes.

António Costa, José Morais, Joaquim Barreto e Martinho Gonçalves

O deputado e o homem do aparelho socialista

A passagem pela Assembleia da República deu-lhe estatuto político e reconhecimento no universo socialista bracarense. No Parlamento, representou o PS e o círculo de Braga na VII Legislatura. A sua ficha parlamentar identifica-o como advogado, militante socialista e deputado eleito por Braga.

Esse percurso ajudou a consolidar uma imagem de político orgânico: conhecedor da máquina partidária, dos equilíbrios internos, das listas, das federações e da relação entre o poder local e o poder central. Martinho Gonçalves pertence a uma geração de socialistas em que a influência se construía na militância prolongada, nas concelhias, nas federações distritais, nos órgãos nacionais e nas disputas internas do partido.

Mas essa mesma cultura orgânica acabaria por ser o terreno da sua ruptura.

O rosto mais combativo do PS em Vila Verde

Durante o período em que exerceu funções como deputado à Assembleia da República pelo círculo de Braga, Martinho Gonçalves afirmou-se como um dos políticos vila-verdenses com maior influência institucional de sempre.

Numa época em que Vila Verde tinha reduzida representação direta nos grandes centros de decisão nacional, a presença de Martinho Gonçalves no Parlamento abriu portas ao concelho e deu ao território uma voz ativa junto do Governo e das estruturas centrais do Estado.

Reconhecido pela capacidade de articulação política, pelo conhecimento profundo dos dossiês administrativos e pela proximidade às estruturas governativas socialistas, foi frequentemente apontado como um interlocutor privilegiado entre o poder central e os interesses locais.

A sua passagem pela Assembleia da República coincidiu com uma fase em que Vila Verde reforçou capacidade de afirmação política fora do concelho, beneficiando da influência de um deputado que conhecia profundamente a realidade minhota e que mantinha forte ligação às populações, associações e instituições locais. Mesmo adversários políticos reconheciam em Martinho Gonçalves um perfil de enorme peso político, respeitado nos meios partidários e governativos, capaz de fazer chegar problemas locais aos centros de decisão.

Para muitos setores socialistas de Vila Verde, continua a ser visto como o deputado vila-verdense mais influente da história democrática do concelho, tanto pela dimensão institucional alcançada como pela rede de contactos e influência política que construiu ao mais alto nível do Estado.

Vila Verde: a trincheira difícil do socialismo

Vila Verde nunca foi terreno fácil para o PS. O concelho tem sido politicamente marcado por forte domínio do centro-direita, tornando a vida da oposição socialista especialmente exigente. Martinho Gonçalves foi uma das figuras que, durante anos, procurou manter o PS local politicamente ativo, mesmo sem capacidade para conquistar o poder municipal.

Em 2017, enquanto líder do PS na Assembleia Municipal, propôs um “Acordo de Mandato” ao presidente da Câmara e ao PSD local, defendendo uma governação concelhia “mais transparente e partilhada”. A proposta incluía transmissão online das sessões da Assembleia Municipal e criação de um código deontológico de conduta ético-política para os membros daquele órgão.

Esse episódio mostra uma faceta menos conhecida do seu perfil: apesar da imagem combativa, Martinho Gonçalves também procurou, em certos momentos, apresentar-se como defensor de entendimentos institucionais, regras de transparência e cooperação democrática.

A tentativa, porém, acabaria por esbarrar no ambiente político local. Em Fevereiro de 2020, anunciou a renúncia ao mandato de deputado municipal. Na sessão da Assembleia Municipal, justificou a decisão com a falta de diálogo político, afirmando que não fora possível criar um clima de cooperação permanente e que tentara modificar um “ambiente de crispação e ausência de diálogo democrático”.

A renúncia foi um momento simbólico: o fim de uma etapa institucional e o início mais visível de uma fase de intervenção pública sobretudo feita a partir de fora dos cargos formais.

A ruptura com Joaquim Barreto e a Federação Distrital

A fase mais marcante da trajetória recente de Martinho Gonçalves é a rutura aberta com a liderança distrital do PS de Braga, então associada a Joaquim Barreto.

Em Julho de 2019, já surgia como um dos principais opositores às escolhas da Distrital para as legislativas. Acusou a liderança de fazer política “própria de caciques” e apelou à intervenção de António Costa. Na altura, criticou a lista de candidatos a deputados, alegando que desrespeitava estruturas concelhias, violava critérios aprovados nacionalmente e prejudicava a representação territorial.

O caso de Vila Verde foi central nessa contestação. José Morais, então presidente da concelhia socialista, tinha sido apoiado pela estrutura local, mas acabou colocado em posição considerada desfavorável. Martinho Gonçalves classificou o episódio como “inaceitável” e acusou a direção distrital de contribuir para a perda de relevância do PS em Braga.

Joaquim Barreto, José Morais, António Costa e Martinho Gonçalves – Autárquicas 2019

Essa crítica não era apenas pessoal. Tinha uma tese política: para Martinho Gonçalves, o PS de Braga estava a perder influência nacional e poder autárquico por causa de uma liderança distrital fechada, sectária e incapaz de unir o partido.

A publicação de Julho de 2022: o ataque mais duro

Martinho Gonçalves escreveu nas redes sociais em julho de 2022 que “a liderança distrital tinha de ser derrotada para “libertar o PS de um passado triste de absoluta decadência política no distrito de Braga”.

Acusa a liderança distrital de ter deixado Braga sem ministros, sem secretários de Estado, sem lugares relevantes na direção do grupo parlamentar socialista, sem representantes minhotos nas principais comissões parlamentares e com presença reduzida nos órgãos nacionais do PS.

A ideia central é clara: Martinho Gonçalves via a perda de influência de Braga no PS nacional como uma humilhação política colectiva. A crítica ao aparelho distrital não era apenas sobre listas ou nomes; era sobre poder, representação e prestígio.

O tom da publicação revela também o estilo político de Martinho Gonçalves: direto, duro, personalizado e pouco conciliador. Não escreve como comentador externo. Escreve como militante que conhece por dentro os órgãos do partido e que se sente autorizado a fazer uma acusação pública de decadência.

Crítico dos “tachos” e das novas adesões ao PS

Meados da década de 90, Vila Verde recebeu Duarte Pio de Bragança, numa visita de cortesia ao concelho.

A frontalidade também se manifestou na política local. Em Fevereiro de 2021, Martinho Gonçalves criticou publicamente pessoas que, segundo ele, tinham aderido ao PS em Vila Verde “mais em busca de empregos do que de militância partidária”. Numa publicação intitulada “Na política não pode valer tudo”, afirmou que o partido estava a ser procurado por gente que “de socialistas pouco ou nada” teria.

Martinho Gonçalves, Filipe Silva e José Morais

A crítica é reveladora da sua visão do partido: para Martinho Gonçalves, o PS deveria ser uma organização de convicção ideológica e militância séria, não uma plataforma de acesso a lugares, empregos ou influência administrativa.

Mas é também uma crítica que mostra o lado mais áspero do seu discurso. Ao falar de “tachos”, “traições” e destruição do PS local, Martinho Gonçalves usava uma linguagem de combate interno, própria de quem via o partido como campo de disputa moral e política.

Depois da rutura, a recomposição

Apesar do afastamento face à antiga liderança distrital, Martinho Gonçalves não desapareceu da vida socialista. Em 2024, declarou apoio à candidatura de Victor Hugo Salgado à Federação Distrital do PS de Braga, juntamente com Luís Filipe Silva e José Morais. O comunicado da candidatura apresentou esse apoio como sinal de abrangência e união, sublinhando o peso histórico dos três militantes em Vila Verde.

Este episódio mostra que Martinho Gonçalves nunca abandonou totalmente o campo socialista. A sua dissidência parece dirigir-se menos contra o PS enquanto identidade política e mais contra determinadas lideranças, métodos e equilíbrios internos.

A sua intervenção pública manteve uma matriz socialista, mas cada vez mais independente da disciplina do aparelho.

O socialista que defendeu acordos com a AD

Martinho Gonçalves com Professor José Gama

Em Março de 2024, Martinho Gonçalves voltou a surpreender ao defender que o PS deveria estar disponível para fazer acordos com o governo liderado pela AD, de forma a garantir estabilidade governativa e evitar que o executivo dependesse do Chega.

A posição contrariava a linha assumida por Pedro Nuno Santos na noite eleitoral, quando o líder socialista rejeitou suportar um governo da AD. Para Martinho Gonçalves, essa era “mais uma opção errada” da liderança socialista, defendendo que os portugueses queriam garantias de estabilidade, moderação e capacidade reformista.

Este ponto é essencial para perceber a sua evolução. Martinho Gonçalves não se apresenta apenas como socialista de oposição à direita. Apresenta-se também como defensor da governabilidade e de entendimentos institucionais quando entende que o interesse nacional o exige.

Um perfil político de combate

O retrato que emerge é complexo.

Martinho Gonçalves é, ao mesmo tempo, um homem do PS e um crítico duro do PS. Foi deputado, dirigente local, candidato autárquico, líder parlamentar municipal e quadro da administração governamental. Mas tornou-se também uma das vozes mais incómodas do socialismo bracarense.

A sua intervenção pública assenta em quatro marcas principais:

Primeiro, a defesa da representação política de Braga e do Minho. Martinho Gonçalves insiste na ideia de que o distrito perdeu peso no PS nacional, no Governo e na Assembleia da República.

Segundo, a crítica ao caciquismo e ao fechamento partidário. Nas suas palavras, a política distrital socialista teria sido capturada por métodos sectários, escolhas impostas e lógicas de aparelho.

Terceiro, a valorização da militância ideológica. As suas críticas às novas adesões no PS de Vila Verde mostram a preocupação com aquilo que entende ser a degradação ética da vida partidária.

Quarto, a disponibilidade para soluções institucionais fora da rigidez partidária. A proposta de acordo de mandato em Vila Verde e a defesa de entendimentos PS/AD em 2024 mostram uma faceta mais pragmática.

Legado e contradições

O legado de Martinho Gonçalves não é linear. Para os seus apoiantes, é um socialista livre, corajoso, conhecedor do distrito e capaz de denunciar aquilo que muitos pensavam mas poucos diziam. Para os críticos, é uma figura excessivamente combativa, por vezes ressentida, que personaliza conflitos e contribui para expor fracturas internas.

Mas há um dado difícil de contestar: Martinho Gonçalves representa uma geração de militantes socialistas que olhava para o partido como espaço de disputa ideológica, poder territorial e influência nacional. A sua crítica à liderança distrital não nasce fora do sistema. Nasce precisamente de alguém que conhece o sistema por dentro.

A sua vida política é também a história de uma desilusão: a de um dirigente que viu o PS de Vila Verde continuar longe do poder municipal e o PS de Braga, na sua leitura, perder capacidade de afirmação nacional.

Hoje, Martinho Gonçalves permanece como uma figura politicamente relevante não pelos cargos que ocupa, mas pela memória, pela intervenção e pela capacidade de marcar debate. É um antigo deputado, um histórico socialista local e uma voz que recusou desaparecer em silêncio.

Num tempo em que muitos antigos dirigentes preferem o recato, Martinho Gonçalves escolheu a exposição. E, ao fazê-lo, tornou-se uma espécie de consciência crítica – incómoda, dura e divisiva – do socialismo vila-verdense e bracarense.

Uma das figuras politicamente mais relevantes que Vila Verde enviou para a Assembleia da República

Independentemente das divisões internas, das polémicas ou das ruturas partidárias que marcaram os últimos anos da sua vida política, Martinho Gonçalves deixa um percurso difícil de ignorar na história recente de Vila Verde e do socialismo minhoto. Advogado, deputado da República, dirigente partidário e protagonista ativo da vida pública durante várias décadas, construiu uma carreira assente numa rara combinação de influência institucional, convicção política e coragem de intervenção. Num tempo em que muitos escolheram o silêncio ou a acomodação, Martinho Gonçalves distinguiu-se pela frontalidade, pela defesa intransigente das suas ideias e pela permanente ligação ao concelho que representou.

Para gerações de socialistas vila-verdenses, continuará a ser recordado como uma das figuras politicamente mais relevantes que Vila Verde enviou para a Assembleia da República – um homem que levou o nome do concelho aos centros de decisão nacionais, que marcou o debate político local durante décadas e que deixa um legado de participação cívica, intervenção pública e influência política raramente igualado na democracia local.

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