Francisco Rodrigues dos Santos, antigo presidente do CDS-PP, anunciou a saída do partido, numa decisão acompanhada de duras críticas à orientação política da atual direção, liderada por Nuno Melo. O antigo dirigente considera que os democratas-cristãos estão a afastar-se dos princípios que historicamente marcaram a identidade do partido.
«Deixo de ser militante do CDS. Continuo a ser democrata-cristão», escreveu Francisco Rodrigues dos Santos numa carta dirigida ao atual presidente do partido, Nuno Melo, divulgada esta quarta-feira pelo jornal Público e noticiada pela Agência Lusa e pelo Observador.
Na carta, o antigo líder centrista afirma já não se identificar com as opções políticas tomadas pelo CDS-PP e admite não estar «capaz de subscrever» a atual orientação partidária.
Rodrigues dos Santos manifesta preocupação com aquilo que considera ser uma crescente influência de discursos identitários, radicalizados e ultraconservadores no debate político promovido pelo partido, acompanhados, na sua opinião, por uma «inquietante insensibilidade social».
O antigo presidente do CDS considera que a dinâmica política atual está demasiado centrada na criação de divisões, na identificação de adversários e na exploração de ressentimentos, em vez de privilegiar a compreensão dos problemas e o diálogo.
Na missiva dirigida a Nuno Melo, procura também sublinhar que as divergências políticas não devem colocar em causa o respeito pessoal e institucional entre antigos e atuais responsáveis do partido.
Liderou o CDS entre 2020 e 2022
Francisco Rodrigues dos Santos, conhecido politicamente como «Chicão», presidiu ao CDS-PP entre janeiro de 2020 e janeiro de 2022.
A sua liderança ficou marcada por um período particularmente difícil para os centristas, que perderam a representação parlamentar nas eleições legislativas de janeiro de 2022, pela primeira vez na história democrática do partido.
Na sequência desse resultado eleitoral, Rodrigues dos Santos apresentou a demissão da liderança.
O CDS viria posteriormente a regressar à Assembleia da República através da coligação com o PSD, integrando também o Governo liderado por Luís Montenegro, com Nuno Melo a assumir a presidência do partido.
Já tinha ameaçado abandonar o partido
A saída agora anunciada não surge totalmente de surpresa. Em abril de 2024, Francisco Rodrigues dos Santos já tinha admitido publicamente a possibilidade de abandonar o CDS, criticando o que considerava ser um partido fechado à renovação.
Na altura, classificou a estrutura centrista como um «clubinho privado de portas fechadas à renovação», defendendo a necessidade de apresentar novos protagonistas e recuperar uma identidade política própria.
Mais recentemente, em setembro de 2026, voltou a manifestar o seu afastamento relativamente à direita portuguesa, afirmando já não se rever no posicionamento político desse espaço.
Segundo uma análise publicada pelo Observador, o antigo líder centrista tinha também manifestado reservas quanto à aproximação da direita ao Chega e à ausência de limites políticos nessa relação.
A saída de Francisco Rodrigues dos Santos representa, assim, mais um sinal de divergência interna no espaço político do CDS, num momento em que o partido procura afirmar a sua identidade dentro da coligação governamental com o PSD.
Apesar da desfiliação, o antigo presidente deixa uma mensagem clara: abandona o partido, mas não abdica da sua identificação com os valores da democracia-cristã.



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