José Luís Carneiro acusa Montenegro de ter perdido controlo político e questiona capacidade do Governo para continuar a governar
O secretário-geral do Partido Socialista considera que o Executivo liderado por Luís Montenegro atravessa uma fase de fragilidade política, marcada pela falta de coordenação e de comando. O líder socialista admite que uma remodelação governamental poderá já não ser suficiente para resolver os problemas do Governo.
O secretário-geral do Partido Socialista (PS), José Luís Carneiro, lançou este domingo duras críticas ao Governo de Luís Montenegro, considerando que o Executivo enfrenta dificuldades de liderança, coordenação e capacidade de resposta aos problemas do país.
Numa entrevista ao Jornal de Notícias e à TSF, o líder socialista afirmou que existem sinais evidentes de falta de coordenação e de comando político no Governo, colocando em causa a eficácia das eventuais mudanças na composição do Executivo.
«Já não sei se uma remodelação será suficiente», afirmou José Luís Carneiro, manifestando dúvidas sobre a capacidade de uma simples alteração de ministros para devolver ao Governo as condições políticas necessárias ao cumprimento dos compromissos assumidos perante os portugueses.
O dirigente socialista sublinhou que o PS tem procurado contribuir para a estabilidade política e evitar uma nova crise governativa, mas advertiu que a continuidade dessa estabilidade depende sobretudo da atuação do primeiro-ministro, do Governo e do grupo parlamentar do PSD.
A posição de Carneiro representa um endurecimento do discurso socialista perante a governação de Montenegro, numa altura em que se acumulam críticas à atuação do Executivo em diferentes áreas.
Protestos pela habitação agravam tensão política
As críticas de José Luís Carneiro surgem num contexto de crescente tensão social, na sequência das operações policiais realizadas durante a madrugada deste domingo nas acampadas pelo direito à habitação, em Lisboa e no Porto.
Segundo informações divulgadas pela RTP, foram detidas 13 pessoas, seis em Lisboa e sete no Porto. A organização dos protestos aponta para mais de 50 manifestantes feridos, enquanto a PSP confirmou 13 agentes feridos, oito dos quais necessitaram de assistência hospitalar. Os números relativos aos manifestantes são ainda objeto de diferentes balanços.
Perante estes acontecimentos, Carneiro considerou inaceitável o uso desproporcionado da força numa democracia e defendeu que a crise da habitação exige respostas políticas, e não policiais.
O PS anunciou, por isso, que pretende chamar com urgência ao Parlamento o ministro da Administração Interna, Luís Neves, para prestar esclarecimentos sobre o planeamento e a execução das operações policiais.
O secretário-geral socialista defendeu igualmente a convocação urgente do Sistema de Segurança Interna, com o objetivo de garantir o acompanhamento institucional e o escrutínio democrático dos acontecimentos.
Carneiro defende remodelação e aponta falhas de liderança
José Luís Carneiro foi ainda mais longe nas críticas à governação, afirmando que, se estivesse no lugar de primeiro-ministro, já teria avançado com uma remodelação governamental.
Contudo, deixou claro que uma mudança de ministros, por si só, não resolverá os problemas do Executivo se Luís Montenegro não assumir efetivamente a liderança política.
«Nenhum Governo resiste à falta de liderança de um primeiro-ministro», afirmou, numa das declarações mais contundentes da sua intervenção. Renascença
O líder socialista apontou também o problema da habitação como uma das áreas em que considera que o Governo tem falhado, defendendo medidas urgentes para proteger inquilinos e proprietários, mobilizar património público e responder ao aumento dos custos habitacionais.
PS quer afirmar-se como alternativa ao Governo
Apesar das críticas, José Luís Carneiro afastou a possibilidade de um bloco central entre PS e PSD, defendendo que os dois partidos devem funcionar como alternativas políticas distintas.
O secretário-geral socialista reiterou que pretende construir uma alternativa de confiança e que o PS continuará a viabilizar as medidas com as quais concorda, rejeitando aquelas de que discorda.
A posição surge também numa altura em que o partido procura afirmar-se como principal alternativa ao atual Executivo, sem assumir a responsabilidade de provocar uma nova crise política.
O cenário coloca Luís Montenegro perante uma pressão política crescente, com o PS a exigir maior capacidade de liderança, coordenação e resposta governativa.
Para já, José Luís Carneiro não anunciou qualquer iniciativa para derrubar o Governo, mas deixou um aviso claro: a estabilidade política não depende apenas da oposição, cabendo sobretudo ao primeiro-ministro demonstrar que tem condições para conduzir o país.



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