Debate de urgência no Parlamento ficou marcado pela troca de acusações entre os partidos. Dados sobre os preços das casas e a escassez de oferta voltaram a colocar a habitação no centro da discussão política.
A crise da habitação voltou a gerar fortes divergências na Assembleia da República. No debate de urgência realizado esta quarta-feira, 21 de outubro, por iniciativa do Livre, o PSD e o Chega responsabilizaram as políticas de imigração dos anteriores governos socialistas pelo agravamento das dificuldades no acesso à habitação. Por sua vez, o Partido Socialista (PS) apontou responsabilidades ao atual Governo, criticando as medidas que considera favorecerem a subida dos preços e pressionarem o mercado imobiliário.
Segundo a agência Lusa, o debate ficou marcado por confrontos políticos entre o co-porta-voz do Livre, Jorge Pinto, o presidente do Chega, André Ventura, e os líderes parlamentares do PSD e do PS, Hugo Soares e Eurico Brilhante Dias, respetivamente.
Imigração no centro das críticas
O PSD e o Chega defenderam que o aumento da população, associado às políticas migratórias dos últimos anos, contribuiu para intensificar a procura de casas num mercado que já enfrenta dificuldades em responder às necessidades das famílias.
André Ventura acusou os anteriores governos de terem permitido a entrada de um elevado número de imigrantes sem assegurar uma resposta habitacional adequada. O líder do Chega criticou ainda os partidos à esquerda, questionando as suas posições sobre medidas destinadas a aumentar a construção e facilitar o acesso à habitação.
A imigração tornou-se, assim, um dos principais pontos de confronto do debate. No entanto, a relação entre os fluxos migratórios e os preços da habitação deve ser analisada em conjunto com outros fatores, nomeadamente a disponibilidade de casas, o crescimento económico, os custos de construção e a concentração da procura nas áreas urbanas.
PS responsabiliza o Governo
Do lado socialista, as críticas centraram-se nas políticas do atual executivo e nas medidas que, segundo o PS, podem contribuir para o sobreaquecimento do mercado imobiliário.
Os socialistas contestaram a tentativa de atribuir a responsabilidade principal pela crise à imigração, defendendo que as opções políticas e a insuficiência de respostas públicas para aumentar a oferta de habitação também devem estar no centro da discussão.
O debate evidenciou, desta forma, duas leituras distintas do problema: enquanto PSD e Chega destacaram a pressão da procura associada à imigração, o PS insistiu na responsabilidade do Governo e nas consequências das medidas adotadas para o mercado habitacional.
Preços continuam a subir
Os dados estatísticos ajudam a compreender a dimensão do problema. De acordo com informação divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o preço mediano das habitações transacionadas em Portugal atingiu os 2.076 euros por metro quadrado em 2025, um aumento de 16,8% face ao ano anterior.
No mercado de arrendamento, a renda mediana dos novos contratos chegou aos 9,29 euros por metro quadrado, mais 9,7% do que em 2024.
Apesar do crescimento da construção licenciada, a resposta da oferta continua a ser uma preocupação. Em 2025, foram concluídos cerca de 30.425 alojamentos, mais 8,7% do que no ano anterior, mas a subida dos preços e das rendas mostra que o aumento da oferta ainda não foi suficiente para garantir habitação acessível a uma parte significativa da população.
Estudos apontam para um problema estrutural
A investigação sobre o mercado imobiliário português também evidencia a complexidade das causas da crise. Um estudo divulgado em junho de 2026, citado pela Renascença, concluiu que a quebra prolongada da construção e o crescimento económico tiveram um papel determinante na evolução dos preços entre 2000 e 2025. Segundo os investigadores, o impacto da imigração não apresentou significado estatístico no modelo analisado.
Por outro lado, uma análise do Banco de Portugal, divulgada em outubro, identifica a migração como um dos fatores que influenciam a procura, a par da evolução dos rendimentos, das condições de financiamento, da fiscalidade, do turismo e das alterações nas preferências habitacionais. O mesmo trabalho destaca que a oferta limitada pode amplificar os efeitos do aumento da procura.
Estes elementos apontam para um problema estrutural, no qual diferentes fatores contribuem para a dificuldade de acesso à habitação, embora o seu peso varie consoante a região e o período analisado.
Habitação mantém-se no centro do debate político
A iniciativa do Livre procurou trazer para o Parlamento as dificuldades sentidas por quem não consegue comprar ou arrendar casa a preços compatíveis com os seus rendimentos. O debate decorreu num contexto de crescente contestação social, com manifestações em Lisboa e no Porto contra o custo da habitação.
No final, a discussão voltou a expor as diferenças entre os partidos quanto às causas e às soluções para a crise. Entre a responsabilização das políticas migratórias, as críticas ao Governo e a exigência de mais construção e habitação acessível, permanece a questão central: como garantir que os portugueses e os residentes em Portugal conseguem encontrar uma casa a preços comportáveis.



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