Movimento pela habitação demarca-se das declarações de um participante numa manifestação no Porto. Luís Montenegro considera as imagens preocupantes, enquanto os organizadores rejeitam qualquer associação a apelos à violência.
O vídeo divulgado pelo gabinete do primeiro-ministro, Luís Montenegro, que mostra um participante numa manifestação no Porto a apelar a um ataque à residência do chefe do Governo, é verdadeiro. No entanto, a organização dos protestos pelo direito à habitação garante que as declarações não representam a posição do movimento e que não devem ser interpretadas como uma ameaça concreta.
As imagens, divulgadas na sexta-feira, 16 de outubro, mostram um homem a defender que se descubra a morada da casa do primeiro-ministro e se atire um tijolo contra a residência. No mesmo discurso, o participante afirma que a fase de protesto pacífico terminou e defende ações mais radicais.
O conteúdo do vídeo foi confirmado por jornalistas que acompanharam a manifestação. Contudo, os responsáveis pelo movimento Acampada, que tem promovido protestos na Praça D. João I, no Porto, fazem questão de se demarcar das declarações.
Organização rejeita responsabilidade pelas declarações
João Silveira, porta-voz do movimento, explicou que a pessoa que aparece nas imagens não pertence à organização. Segundo o responsável, as assembleias são abertas à participação de qualquer pessoa inscrita para intervir, não sendo possível antecipar o conteúdo de cada discurso.
O porta-voz considerou as palavras do participante uma manifestação figurativa de indignação e assegurou que o movimento não concorda com o apelo à violência. Em declarações reproduzidas pelo Observador, defendeu ainda que os aplausos registados no vídeo refletiam o sentimento de revolta de alguns participantes, e não necessariamente a aprovação das ações sugeridas.
Também o advogado que representa o movimento, Tiago Machado, afirmou que a organização não subscreve este tipo de comportamento e reiterou o compromisso com a ordem pública.
Montenegro considera imagens preocupantes
Luís Montenegro manifestou preocupação com o conteúdo do vídeo no final da cimeira do Conselho Europeu, em Bruxelas. O primeiro-ministro considerou que as declarações representam um apelo direto à violência e alertou para o risco de importar para Portugal formas de conflitualidade observadas noutros países.
O chefe do Governo sublinhou, contudo, que compreende a indignação de quem exige respostas para o problema da habitação e reconhece o direito dos cidadãos a manifestarem-se contra as políticas públicas.
Montenegro esclareceu ainda que as suas anteriores referências a possíveis comportamentos egoístas diziam respeito à atuação de partidos políticos, movimentos associativos e organizações, e não aos manifestantes em geral.
Protestos marcados pela tensão no Porto
O episódio surge num contexto de crescente tensão em torno dos protestos pelo direito à habitação. As mobilizações na cidade do Porto começaram com uma acampada e intensificaram-se após uma intervenção policial durante a madrugada de quinta-feira, que provocou dezenas de feridos, segundo os relatos noticiosos.
Os manifestantes reivindicam, entre outras medidas, o reforço da habitação pública, limites ao aumento das rendas e o fim dos despejos. A organização sustenta que estas reivindicações devem continuar a ser apresentadas através de mobilização coletiva e rejeita que o episódio do vídeo represente os objetivos do protesto.
A divulgação das imagens abriu, assim, um novo foco de confronto político: enquanto o primeiro-ministro considera preocupantes as palavras dirigidas à sua residência e à sua família, os organizadores acusam o Governo de retirar o episódio do contexto geral da mobilização.
Até ao momento, as declarações públicas citadas pelos órgãos de comunicação social não demonstram, por si só, que exista um plano concreto para concretizar o ataque mencionado no vídeo. A distinção entre a autenticidade das imagens e a existência de uma ameaça efetiva é, por isso, central neste caso.



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