“É só uma brincadeira”: adolescentes usam IA para criar imagens falsas de colegas nuas
O recurso à Inteligência Artificial (IA) para criar imagens falsas de adolescentes nuas está a ganhar espaço entre jovens, muitas vezes apresentado como uma simples “brincadeira” entre colegas. Mas aquilo que alguns encaram como uma piada pode constituir uma forma grave de violência digital e, quando envolve menores, pode assumir contornos criminais.
Em Portugal, o Centro Internet Segura (CIS) já recebe pedidos de ajuda relacionados com imagens de cariz sexual de menores geradas através de IA. Segundo dados divulgados pelo organismo, estes conteúdos são, em alguns casos, produzidos por “pares ou colegas de escola” e posteriormente partilhados em grupos de WhatsApp ou publicados nas redes sociais.
A facilidade de acesso às ferramentas de geração de imagens veio agravar o problema. Fotografias aparentemente inofensivas, publicadas nas redes sociais, podem ser manipuladas para criar imagens sexualizadas que nunca existiram na realidade. A vítima não precisa de ter tirado ou enviado qualquer fotografia íntima para ser alvo deste tipo de abuso.
“A imagem é falsa, mas o dano é real”
O facto de a fotografia ter sido criada artificialmente não significa que não exista uma vítima. A exposição pública, a humilhação, o medo de que a imagem continue a circular e as consequências na escola e nas relações sociais podem ser profundas.
A Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) tem alertado precisamente para os riscos da IA na criação de imagens realistas de pessoas identificáveis sem o seu conhecimento ou consentimento, destacando de forma particular os perigos para crianças e jovens. A entidade defende salvaguardas específicas para impedir a criação e disseminação de imagens íntimas não consentidas e mecanismos eficazes para remover conteúdos prejudiciais.
Também a Polícia Judiciária identifica a utilização da IA na manipulação de fotografias e na produção de conteúdos de abuso e exploração sexual de crianças como uma tendência preocupante. Num relatório sobre criminalidade investigada, a PJ refere que estas ferramentas podem facilitar a exploração de menores e a criação de conteúdos ilícitos.
Quando a “brincadeira” pode ser crime
A legislação portuguesa prevê crimes relacionados com pornografia de menores. No caso de imagens sexualizadas que representem menores, o facto de o conteúdo ser artificial não elimina necessariamente a relevância criminal. Estudos jurídicos sobre a aplicação do artigo 176.º do Código Penal português têm analisado especificamente os chamados deepfakes sexuais envolvendo menores.
As consequências podem atingir não apenas quem cria a imagem, mas também quem a guarda ou a partilha, dependendo das circunstâncias e do enquadramento concreto dos factos.
E já existem processos judiciais que demonstram a seriedade com que as autoridades tratam crimes sexuais envolvendo jovens e conteúdos digitais. Em junho de 2026, por exemplo, o Ministério Público divulgou uma condenação de quatro jovens por crimes que incluíram 27 crimes de pornografia de menores, com penas únicas entre sete e oito anos de prisão.
Problema está a chegar às escolas
O fenómeno não é exclusivamente português. Em julho deste ano, em Espanha, um jovem de 14 anos foi investigado por alegadamente criar e divulgar deepfakes pornográficos de nove colegas de escola, utilizando fotografias das vítimas disponíveis nas redes sociais. O caso envolveu suspeitas de crimes relacionados com pornografia infantil, corrupção de menores e descoberta e revelação de segredos.
Em Portugal, o Centro Internet Segura tem igualmente alertado para o aumento de situações que envolvem crianças e jovens. Em 2025, a Linha Internet Segura apoiou 119 menores vítimas de diferentes formas de cibercrime e violência online, enquanto os casos de crimes sexuais contra crianças online aumentaram 92% face ao ano anterior.
A APAV registou ainda, em 2024, 188 contactos relacionados com violência sexual baseada em imagens e 61 situações de partilha não consentida de imagens íntimas, assinalando também o aumento da utilização de ferramentas de IA para manipulação de imagens.
Vítimas não devem ser responsabilizadas
Especialistas e entidades de proteção alertam para a importância de não culpar a vítima. Ter fotografias públicas nas redes sociais não constitui autorização para que alguém as transforme em conteúdos sexuais.
Perante uma situação deste género, a recomendação passa por não voltar a partilhar as imagens, preservar elementos que possam servir de prova, denunciar o conteúdo à plataforma onde foi publicado e procurar ajuda junto das autoridades e entidades especializadas.
A mensagem deixada pelas entidades de proteção é clara: não é uma brincadeira quando alguém utiliza a imagem de outra pessoa para a sexualizar sem consentimento. Com menores envolvidos, as consequências podem ser ainda mais graves — para a vítima, para a família e também para quem cria ou espalha o conteúdo.



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