Quercus contesta passagem da Volta a Portugal pelo Gerês e alerta para “grave precedente”
A associação ambientalista Quercus contestou a autorização concedida pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) para a passagem da Volta a Portugal em bicicleta pela Mata de Albergaria, no Gerês, considerando que a realização da prova naquele local poderá criar um “grave precedente”.
A 7.ª etapa da Volta a Portugal está prevista para passar pela Mata de Albergaria na próxima quinta-feira, sendo que o ICNF anunciou que a passagem será sujeita a várias medidas de proteção da biodiversidade, incluindo a interdição da presença de público nas zonas mais sensíveis.
A Quercus reconhece que as medidas anunciadas — como a limitação dos veículos de apoio e a proibição de meios aéreos e de amplificação sonora — podem reduzir alguns dos impactos associados à prova. No entanto, considera que essas condicionantes não resolvem a questão principal.
Para a organização ambientalista, a Mata de Albergaria “não é lugar” para uma competição desportiva de dimensão nacional, devido à sua elevada sensibilidade ecológica e à extensa logística associada ao evento.
A associação recorda que a Mata de Albergaria integra áreas de proteção parcial de tipo I e é ladeada, em parte do percurso, por zonas de proteção total. Defende, por isso, que, existindo alternativas viáveis, deve prevalecer a conservação de uma das áreas naturais mais sensíveis do único Parque Nacional português.
Quercus questiona capacidade de carga e legalidade
A Quercus afirma ainda que não foi divulgada, até ao momento, uma avaliação da capacidade de carga da Mata de Albergaria, dos efeitos cumulativos da visitação ou da eficácia das medidas anunciadas especificamente para a passagem da Volta a Portugal.
A associação manifesta também dúvidas quanto à compatibilidade da autorização com o Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG).
Segundo a Quercus, a pressão automóvel e turística que a Mata de Albergaria já suporta deveria levar à adoção de medidas de redução e ordenamento do trânsito, e não ser utilizada como argumento para justificar novos eventos de grande dimensão.
O principal alerta da organização prende-se, contudo, com o precedente que a decisão poderá criar. A Quercus considera que a autorização poderá abrir a porta à realização de outros eventos em áreas naturais particularmente sensíveis, fazendo com que os impactos ultrapassem aqueles diretamente provocados pela passagem dos ciclistas.
As preocupações são, segundo a associação, também partilhadas por membros do Conselho Estratégico do PNPG e pelo antigo diretor do parque, Henrique Miguel Pereira, nomeadamente relativamente à legalidade da decisão e ao sinal transmitido à sociedade.
Pedido para alterar o percurso
A Quercus reconhece a importância da Volta a Portugal e do ciclismo para a promoção dos territórios, mas defende que a valorização turística e desportiva deve ser compatível com os objetivos de conservação das áreas protegidas.
Nesse sentido, a associação apela ao ICNF e à organização da Volta a Portugal para que alterem o percurso e retirem a passagem da 7.ª etapa pela Mata de Albergaria, defendendo igualmente que o local seja excluído de futuras edições da prova.
A Quercus pede ainda que seja tornada pública a fundamentação técnica e jurídica que sustentou a autorização, de forma a permitir uma avaliação transparente da sua compatibilidade com os instrumentos de gestão e proteção do Parque Nacional da Peneda-Gerês.



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