Braga. 50 mil euros para festival polémico: Chega denuncia “esquerda cultural” nas escolas

Executivo de Braga aprovou por larga maioria o apoio financeiro à associação cultural, mas Filipe Aguiar votou contra e deixou fortes críticas à dependência de dinheiros públicos, ao conteúdo programático e ao trabalho do festival com escolas, crianças e jovens.

A Câmara Municipal de Braga aprovou a atribuição de um apoio financeiro de 50 mil euros aos Encontros da Imagem – Associação Cultural, no âmbito da realização da 36.ª edição do festival. A proposta foi aprovada com 10 votos a favor e apenas um voto contra, do vereador do Chega, Filipe Aguiar, que deixou uma declaração de voto fortemente crítica, tanto no plano financeiro como no plano ideológico.

O apoio foi submetido ao executivo ao abrigo do Código Regulamentar do Município de Braga, prevendo a atribuição da verba, a aprovação da minuta do contrato e a autorização para a respetiva celebração. O processo acabou por ser aprovado com os votos favoráveis do presidente da Câmara, João Rodrigues, dos vereadores da Coligação Juntos por Braga, da vereadora independente Catarina Miranda Basso Marques, dos vereadores do Movimento Amar e Servir Braga, dos eleitos da Coligação Somos Braga e do vereador da Iniciativa Liberal. O Chega foi o único a votar contra.

Na declaração de voto, Filipe Aguiar começa por atacar a dimensão financeira do apoio, sustentando que os Encontros da Imagem são já um festival maduro, com 36 edições, e que continuam, no seu entender, excessivamente dependentes de financiamento público. O vereador refere que o evento tem um orçamento superior a 320 mil euros, mas receitas próprias na ordem dos 7%, considerando que, neste contexto, o apoio municipal já não representa apenas uma ajuda pontual à cultura, mas antes uma “subsidiação permanente”.

O eleito do Chega acrescenta que o festival conta já com 120 mil euros de apoio do Estado central e que, além dos 50 mil euros em apoio financeiro direto agora aprovados pela Câmara, existirá também um apoio não financeiro que, segundo a sua declaração, ultrapassará os 100 mil euros. Para Filipe Aguiar, isto faz com que a autarquia assuma um papel central no financiamento de um evento que, afirma, não controla diretamente.

A crítica do Chega não se ficou, contudo, pelas contas. Filipe Aguiar deu à sua declaração uma forte carga ideológica, apontando baterias ao conteúdo programático do festival. O vereador criticou o facto de o plano dos Encontros da Imagem assumir objetivos ligados à promoção da diversidade étnica e cultural, inclusão social, igualdade de género e cidadania, bem como temas como território, identidade, migração, deslocamento e minorias.

Na leitura do Chega, esta orientação corresponde àquilo que Filipe Aguiar classificou como a “gramática da esquerda cultural” e do “multiculturalismo progressista”. O vereador contestou, em particular, o peso dado a matérias como migrações, identidades, minorias e igualdade de género, defendendo que o Município deve questionar melhor que tipo de conteúdos está a financiar com dinheiro público.

Uma das maiores reservas deixadas pelo Chega prende-se com o serviço educativo do festival. Filipe Aguiar manifestou preocupação com o trabalho previsto junto de escolas, crianças e jovens, sobretudo quando estejam em causa temas como identidade, migração, diversidade étnica e igualdade de género. O vereador questionou que garantias existem para impedir que estas atividades se transformem, nas suas palavras, num canal de doutrinação ideológica, e perguntou se há salvaguardas claras quanto ao papel das famílias na educação dos menores.

O autarca perguntou ainda qual o peso real dado à identidade portuguesa, à cultura local e à tradição bracarense na programação e no orçamento do festival, face ao foco que identifica em agendas globais, migração, minorias e discursos identitários.

Apesar das críticas duras do Chega, o restante executivo municipal não acompanhou o voto contra. A proposta passou com uma maioria expressiva, juntando todos os restantes partidos e movimentos representados na Câmara. A aprovação confirma, assim, a continuidade do apoio municipal aos Encontros da Imagem, um dos eventos culturais mais antigos e reconhecidos da cidade, mas deixa também aberta uma frente política em torno dos critérios de financiamento cultural, da dependência de apoios públicos e dos conteúdos levados às escolas.

Com esta votação, o Chega procurou marcar uma linha de oposição clara: não apenas contra o montante atribuído, mas contra aquilo que considera ser uma opção cultural e ideológica da autarquia. Para Filipe Aguiar, a questão central é saber se Braga deve continuar a financiar, com verbas municipais, um festival que descreve como dependente do Estado, dirigido a públicos restritos e marcado por uma agenda cultural que considera desalinhada com a identidade local e tradicional do concelho.

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