Uma invasão extraterrestre, discos voadores a aterrar na planície de Cabanelas e um rasto de destruição até ao centro de Braga. O cenário parecia saído de um filme de ficção científica, mas a notícia foi levada tão a sério que houve famílias que fugiram da região, numa tentativa de escapar ao fim do mundo. Tudo aconteceu a 30 de outubro de 1988.
Na manhã de 30 de outubro de 1988, os ouvintes da Rádio Braga, uma estação local entretanto extinta, foram surpreendidos por um alerta insólito: inúmeros discos voadores, alegadamente tripulados por marcianos, tinham aterrado na planície de Cabanelas, dando início a uma suposta invasão extraterrestre.
A emissão acompanhou de perto os acontecimentos, relatando uma sucessão de episódios assustadores e um alegado rasto de destruição que se estendia progressivamente até ao centro da cidade de Braga. O ambiente de medo e incerteza rapidamente tomou conta da região, com a população a acompanhar, em sobressalto, as notícias daquela que parecia ser uma verdadeira ameaça planetária.
Como se a encenação já não fosse suficientemente convincente, uma coincidência acabou por dar ainda mais credibilidade ao cenário. No âmbito das comemorações do 118.º aniversário da Cruz Vermelha, encontravam-se instaladas várias tendas de apoio na Avenida Central, em Braga, onde decorria um simulacro de catástrofe. Na narrativa transmitida pela rádio, aquele espaço foi apresentado como um ponto de acolhimento e assistência aos feridos da alegada invasão, reforçando a ilusão de que algo de muito grave estava efetivamente a acontecer.
O pânico instalou-se e várias famílias, algumas delas naturais de Cabanelas, decidiram abandonar as suas casas e procurar refúgio longe da suposta ameaça. Houve quem partisse com familiares, amigos e alguns dos seus bens pessoais, numa verdadeira fuga ao anunciado fim do mundo.
Entre os destinos escolhidos contam-se a Póvoa de Varzim, Coimbra, o Gerês e até Espanha. A dimensão da suposta catástrofe e os relatos de destruição alimentavam o receio de que nenhum lugar nas proximidades estivesse a salvo dos invasores vindos do espaço.
Uma brincadeira radiofónica que atravessou fronteiras
Mas, afinal, não havia marcianos, discos voadores ou qualquer invasão planetária. Tudo não passou de uma emissão especial de homenagem a Orson Welles, assinalando o 50.º aniversário da célebre transmissão radiofónica de A Guerra dos Mundos, realizada em 1938.
A iniciativa da Rádio Braga recriou o ambiente de uma notícia de última hora, recorrendo à linguagem e aos recursos de uma emissão de emergência para dar realismo à narrativa. O resultado foi uma experiência radiofónica que ultrapassou largamente as expectativas e que ficou na memória de muitos habitantes da região.
A dimensão da brincadeira ultrapassou também as fronteiras nacionais. O episódio chegou aos meios de comunicação social, tendo sido noticiado por rádios, televisões e jornais, tanto em Portugal como no estrangeiro.
Existem referências e recortes de jornais de várias cidades e países, entre os quais Bruxelas, Nova Iorque, Canadá, Hong Kong, República Dominicana, Frankfurt, Rio de Janeiro e Vigo, entre muitos outros, que deram conta da insólita invasão extraterrestre com origem na região de Braga.
38 anos depois, Cabanelas continua a ter uma história de outro planeta para contar.
O que começou como uma emissão radiofónica de homenagem transformou-se num episódio invulgar da memória coletiva local, demonstrando o poder da rádio, a força da imaginação e a facilidade com que uma notícia bem construída pode transformar uma manhã aparentemente normal num cenário de verdadeiro pânico.
Desta vez, felizmente, os marcianos acabaram por não conquistar Cabanelas. Mas, durante algumas horas, fizeram história.



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