Mais de 300 participantes decidiram passar a noite ao relento na praça lisboeta, numa nova etapa da mobilização pelo direito à habitação. A decisão surgiu após diálogo com a polícia e numa madrugada marcada pela incerteza quanto à continuidade do protesto.
Os manifestantes que participam na acampada pelo direito à habitação, na Praça do Rossio, em Lisboa, decidiram retirar as tendas e passar a noite ao relento, organizando-se para dormir juntos, «em conchinha». A decisão foi tomada durante uma assembleia popular realizada na madrugada desta quinta-feira, 22 de outubro, numa tentativa de manter o protesto sem recorrer às estruturas de campismo que têm marcado a ocupação da praça.
Segundo a Lusa, citada pela Executive Digest, a proposta de desmontar as tendas e permanecer na rua de forma organizada foi a mais votada, com 338 votos. As alternativas eram abandonar o local ou manter as tendas montadas, formando um cordão humano à sua volta.
A votação decorreu pelas 00h45, depois de vários dias de mobilização e de contactos com as autoridades. A decisão permitiu aos participantes encontrar uma forma de continuar a reivindicar o direito à habitação, mantendo-se no espaço público, mas sem as tendas.
Uma «aconchada» pela habitação
Com a noite fria de outono e temperaturas na ordem dos 13 graus Celsius, por volta da 01h30, alguns manifestantes brincavam com a necessidade de se juntarem para enfrentar o frio. A ideia de dormir «em conchinha» deu origem à expressão «aconchada», numa combinação de humor, solidariedade e resistência que passou a marcar esta fase do protesto.
A iniciativa acontece depois de a PSP ter retirado tendas do Rossio durante uma operação realizada na madrugada de terça-feira, 20 de outubro. A intervenção terminou com 55 pessoas detidas em Lisboa, segundo informações divulgadas pelas autoridades e noticiadas pela comunicação social. Os manifestantes contestaram a atuação policial, enquanto o Ministério da Administração Interna afirmou que a retirada ocorreu após contactos prévios e tentativas de obter a remoção voluntária das estruturas.
Apesar da intervenção, os participantes regressaram à praça na quarta-feira, desta vez com sacos-cama, esteiras e outros equipamentos para pernoitar, mas sem voltar a montar tendas.
Protesto contra a crise na habitação
A mobilização no Rossio insere-se numa vaga de protestos pelo direito à habitação que começou no Porto, a 10 de outubro, e se estendeu a Lisboa e a outras cidades. Os participantes contestam o aumento dos preços das casas e das rendas, bem como as dificuldades crescentes no acesso a uma habitação digna.
Entre as reivindicações apresentadas numa assembleia popular estão a reversão da nova legislação do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, o aumento da oferta pública de habitação e a recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais. Os manifestantes defendem ainda medidas para limitar o peso dos fundos imobiliários no mercado residencial e conter os custos das rendas.
O protesto decorre também num contexto de debate político sobre as alterações à legislação do arrendamento. O Governo tem defendido o cumprimento da lei nas ocupações do espaço público, enquanto os movimentos cívicos insistem na legitimidade da manifestação e na urgência de respostas concretas à crise habitacional.
Ao optarem por dormir ao relento, sem tendas, os participantes procuram manter a mobilização e demonstrar que a retirada das estruturas não põe fim às reivindicações. No Rossio, a «aconchada» transforma-se, assim, numa nova forma de protesto: sem paredes nem teto, mas com a promessa de continuar a exigir que o acesso à habitação seja tratado como um direito fundamental.



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