Da escola à habitação: o desencanto de uma geração que já não acredita em respostas políticas
França e Espanha vivem semanas de forte contestação, com milhares de jovens nas ruas contra problemas que condicionam o futuro. Em Portugal, a insatisfação também cresce, mas a contestação mantém-se, em regra, mais institucional e pacífica — e a sensação de que pouco muda permanece.
Dois países, duas reivindicações diferentes, mas um sentimento cada vez mais semelhante: o de uma geração jovem que olha para o futuro e sente que está a entrar num jogo cujas regras já foram definidas por outros.
Em França, estudantes estão a sair às ruas contra escolas degradadas, falta de professores, turmas sobrelotadas e um sistema educativo que muitos consideram incapaz de garantir igualdade de oportunidades. Os protestos, iniciados em setembro, espalharam-se pelo país e, em vários locais, deram origem a confrontos com as forças de segurança.
O movimento atingiu uma dimensão que obrigou centenas de estabelecimentos de ensino a encerrar total ou parcialmente. As autoridades francesas contabilizaram milhares de detenções e centenas de feridos, num cenário em que manifestações inicialmente centradas em reivindicações educativas acabaram por assumir uma dimensão mais ampla de contestação social.
Em Espanha, a revolta tem outro rosto: a habitação.
Milhares de pessoas saíram às ruas em mais de 50 cidades contra o aumento das rendas, os despejos e a dificuldade crescente em conseguir uma casa. Em Madrid, a manifestação de 3 de outubro decorreu de forma pacífica e juntou, segundo números oficiais, cerca de 70 mil pessoas, enquanto estimativas dos organizadores apontaram para números bastante superiores.
O problema é particularmente pesado para os jovens. A combinação entre rendas elevadas, salários que não acompanham o custo de vida e dificuldade em comprar casa está a atrasar a emancipação de milhares de pessoas.
É neste contexto que ganha força a metáfora do sociólogo Alessio Motta, segundo a qual “ser jovem hoje em dia é como entrar num jogo de Monopólio a meio, quando todas as ruas já foram compradas e os hotéis foram construídos por todo o lado”.
A imagem é simples, mas traduz uma sensação complexa: a de que as gerações mais novas chegaram demasiado tarde a um mercado onde os principais ativos já foram adquiridos e onde os salários não permitem acompanhar o preço da entrada.
E Portugal?
Portugal não está imune a este desencanto.
A crise da habitação tornou-se também uma das principais preocupações dos portugueses, particularmente entre os jovens. Um documento recente da Comissão Europeia alerta que os preços da habitação têm crescido mais rapidamente do que os rendimentos e que, em algumas zonas sob forte pressão habitacional, o arrendamento de um apartamento normal de duas divisões pode absorver mais de 80% do rendimento mediano de um jovem adulto.
Também em Portugal existem movimentos de contestação. No final de setembro, a plataforma “Não Dá Mais”, que reúne cerca de três dezenas de coletivos ligados à habitação e às migrações, realizou uma ação simbólica junto ao Ministério da Habitação e anunciou novas manifestações para outubro.
A diferença está, sobretudo, na intensidade da resposta nas ruas.
Enquanto em França a contestação estudantil já provocou bloqueios, encerramentos de escolas, confrontos e milhares de detenções, e em Espanha dezenas de milhares de pessoas têm ocupado as ruas para exigir respostas para a crise da habitação, em Portugal a contestação tende a assumir formas mais pacíficas e institucionais.
Não significa que o descontentamento seja menor. Significa que a sua expressão é diferente.
E é precisamente aí que surge uma questão incómoda: se as manifestações são pacíficas, mas as políticas públicas demoram anos a produzir resultados, até onde pode crescer a frustração sem que a rua passe a ser mais radical?
Portugal tem evitado, até agora, os níveis de violência registados em alguns momentos em França. Mas isso não elimina o problema de fundo. Os preços das casas continuam a pressionar os jovens, a independência financeira é adiada e a perceção de que trabalhar não é suficiente para garantir uma vida autónoma ganha espaço.
França e Espanha mostram duas formas distintas de explosão de um mesmo problema: uma geração que sente que o contrato social deixou de lhe garantir aquilo que as gerações anteriores tomavam como relativamente adquirido — uma educação com condições e a possibilidade de construir uma vida independente.
Em França, o protesto nasce sobretudo da escola. Em Espanha, da habitação. Em Portugal, as duas preocupações cruzam-se cada vez mais.
E a grande questão deixa de ser apenas por que razão os jovens protestam.
Passa a ser outra: quanto tempo pode uma geração continuar a pedir mudanças pelas vias tradicionais antes de concluir que essas vias não produzem resultados suficientemente rápidos?



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