Primeiro-ministro espanhol dissolve Parlamento após derrota no Congresso sobre medidas para responder à crise da habitação. Eleições gerais realizam-se a 29 de novembro.
Madrid, 5 de outubro de 2026 — O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, anunciou esta segunda-feira a convocação de eleições gerais antecipadas para 29 de novembro, colocando fim antecipado à legislatura num momento de forte instabilidade política e de crescente pressão social em torno da crise da habitação.
O anúncio foi feito numa declaração institucional no Palácio da Moncloa, depois de Sánchez ter informado o rei Felipe VI da decisão. O primeiro-ministro anunciou ainda a realização de um Conselho de Ministros extraordinário para formalizar a dissolução das Cortes Generales.
«“Chegou o momento de os espanhóis e as espanholas decidirem que futuro querem para si próprios e para o seu país”, afirmou Sánchez.»
Derrota no Parlamento precipitou decisão
A decisão surge poucos dias depois de uma importante derrota parlamentar para o Governo de coligação liderado pelo PSOE. Na sexta-feira, o Congresso dos Deputados rejeitou dois decretos relacionados com a habitação, depois de Partido Popular (PP), Vox e Junts terem votado contra as medidas apresentadas pelo Executivo.
Entre as propostas estava a suspensão de despejos de famílias vulneráveis até 2030 e outras medidas destinadas a aliviar a pressão sobre os arrendamentos. A derrota parlamentar ocorreu num contexto de crescente descontentamento popular com os preços das casas e das rendas.
A crise da habitação ganhou ainda maior dimensão depois do despejo, em Madrid, de uma mulher de 87 anos, episódio que desencadeou protestos e uma mobilização de organizações de inquilinos.
No sábado, dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas em cerca de 50 cidades espanholas para exigir medidas contra o aumento dos preços da habitação. Em Madrid, cerca de 70 mil manifestantes participaram nos protestos, segundo estimativas citadas pela Reuters.
Sánchez procura uma maioria mais forte
Na declaração desta segunda-feira, Sánchez defendeu o trabalho realizado pelo seu Governo desde o início da legislatura, destacando o crescimento económico, a criação de emprego e medidas sociais.
Ao mesmo tempo, reconheceu que existem problemas por resolver, sobretudo no acesso à habitação, na desigualdade e nos serviços públicos.
O primeiro-ministro argumentou que precisa de uma maioria parlamentar mais ampla para conseguir avançar com a sua agenda política.
“Para fazer mais, precisamos de renovar e ampliar o apoio das pessoas”, afirmou Sánchez, defendendo a necessidade de uma maioria progressista mais forte.
O líder socialista apresentou também as eleições como uma escolha entre a continuidade das políticas do seu Governo e aquilo que classificou como uma possível “onda ultradireitista” em Espanha.
Uma legislatura marcada pela fragilidade parlamentar
O Governo de Sánchez tem enfrentado dificuldades para aprovar legislação devido à sua dependência de vários partidos para obter maiorias no Congresso. A situação tornou-se particularmente complicada após o afastamento de posições entre o PSOE e alguns dos seus parceiros parlamentares.
A rejeição dos decretos da habitação evidenciou novamente a dificuldade do Executivo em reunir apoios suficientes no Parlamento. Segundo a Reuters, a coligação governamental conta atualmente com 147 dos 350 lugares do Congresso, deixando Sánchez dependente de acordos com outras forças políticas.
A crise política junta-se a outros temas controversos, incluindo acusações de corrupção e a gestão das políticas migratórias, aumentando a pressão sobre o Governo socialista.
Calendário eleitoral
O decreto de convocação deverá ser publicado no Boletim Oficial do Estado (BOE) a 6 de outubro. A partir daí começa oficialmente o processo eleitoral.
De acordo com o calendário divulgado pela Agência EFE, a campanha eleitoral terá início à meia-noite de 13 de novembro, terminando às 24h00 de 27 de novembro. O dia 28 será reservado à reflexão e os espanhóis irão às urnas no domingo, 29 de novembro.
O novo Parlamento deverá constituir-se até 24 de dezembro, de acordo com os prazos legais.
Eleições decisivas para o futuro político de Espanha
As eleições de novembro serão decisivas para determinar se Sánchez consegue renovar o mandato e reforçar a posição do PSOE ou se a oposição conseguirá formar uma alternativa de Governo.
O Partido Popular e o Vox surgem como forças centrais no novo cenário eleitoral, enquanto o PSOE terá de defender a sua capacidade de governar num contexto marcado pela crise da habitação, pela fragmentação parlamentar e pelo crescimento da polarização política. As possíveis alianças entre partidos poderão voltar a ser determinantes para formar Governo após as eleições.
Com a dissolução das Cortes, Espanha entra assim numa campanha eleitoral antecipada que deverá colocar a habitação, o custo de vida, a economia, a imigração e o futuro das políticas sociais no centro do debate.
A votação de 29 de novembro poderá, por isso, redefinir o equilíbrio político espanhol e determinar se Pedro Sánchez permanece no poder ou se Espanha entra numa nova fase política.



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