Gestor julgado por violência doméstica também foi alvo de denúncia por perseguição
Super Bock questionada pelo VOX sobre denúncia de perseguição atribuída a gestor, mas não respondeu às questões colocadas
Empresa foi alertada em 2023 para alegadas vigilâncias e deslocações realizadas com viatura de serviço. Após ser confrontada pelo VOX, limitou-se a pedir o envio das perguntas.
Nota da redação:
Esta reportagem surge na sequência da notícia publicada pelo Semanário VOX no passado dia 17 de junho, na qual foi revelado que Ezequiel José dos Santos Cabral, gestor da Super Bock Group, começou a ser julgado no Tribunal Judicial da Comarca do Porto pela alegada prática de dois crimes de violência doméstica agravada, tendo como alegadas vítimas a então esposa, identificada nesta reportagem pelo nome fictício de Ana, e o filho menor do casal, identificado pelo nome fictício de Mateus.
Nessa primeira peça, o VOX deu a conhecer os factos constantes da acusação deduzida pelo Ministério Público, que descreve um alegado padrão continuado de ameaças, humilhações, insultos e episódios de violência física e psicológica no contexto da relação familiar.
A presente reportagem não incide sobre a acusação de violência doméstica, mas sim sobre um conjunto de documentos a que o VOX teve entretanto acesso e que revelam que, paralelamente ao processo criminal, a Super Bock Group foi formalmente alertada, ainda em 2023, para alegados comportamentos de perseguição atribuídos ao seu colaborador.
O objetivo desta peça é dar a conhecer esses documentos, esclarecer qual foi a atuação da empresa após a receção da denúncia e dar conta das diligências efetuadas pela redação para ouvir a posição oficial da Super Bock Group, no estrito cumprimento do princípio do contraditório.
A alegada perseguição a Pedro (nome fictício) levou mesmo à intervenção da entidade patronal de Ezequiel Cabral. A 13 de outubro de 2023, foi enviada uma carta à administração da Super Bock Group na qual eram descritos comportamentos que, segundo o autor da exposição, configuravam uma campanha de intimidação relacionada com o processo de separação de Ana e Ezequiel.
No documento, a que o VOX teve acesso, Pedro afirmava sentir-se alvo de vigilâncias e deslocações frequentes por parte do gestor, alegadamente realizadas com recurso à viatura de serviço atribuída pela empresa e, em algumas situações, durante horário laboral. A exposição referia ainda que essas presenças ocorriam “em dias úteis e fins de semana de manhã, tarde e noite” e que, em algumas ocasiões, teriam sido registadas pelas câmaras de videovigilância instaladas na habitação do denunciante.
A carta procurava também explicar a alegada motivação para estes comportamentos. Segundo o autor da exposição, Pedro mantinha uma relação de amizade com Ana, então esposa de Ezequiel Cabral, circunstância que o gestor alegadamente associava à ruptura do casamento. O documento enviado à empresa refere mesmo que Ezequiel “vê nele o causador da separação do casal”, acrescentando que a situação teria sido reconhecida pelo próprio perante a mulher e os dois filhos menores.
Numa das passagens mais relevantes da exposição, o denunciante afirmava que Ezequiel Cabral lhe fazia “visitas” regulares junto da residência, considerando que essas deslocações constituíam uma forma de intimidação.
“O nosso constituinte tem-se sentido perseguido pelo vosso colaborador.”
Foi desta forma que a situação foi descrita na comunicação remetida à administração da Super Bock Group.
O autor da denúncia solicitava ainda à empresa que averiguasse a eventual utilização de uma viatura associada ao grupo empresarial nessas deslocações, alertando para a possibilidade de a própria Super Bock vir a ser associada aos acontecimentos relatados.
VOX procurou ouvir a versão da Super Bock
No âmbito da preparação desta reportagem, o VOX contactou recentemente a Super Bock Group para exercer o direito ao contraditório e apurar qual foi a atuação da empresa após a receção daquela denúncia.
Num primeiro momento, a redação solicitou a indicação do departamento competente para responder às questões relacionadas com o caso. Em resposta, a empresa informou desconhecer o assunto em concreto e solicitou o envio das perguntas e do respetivo enquadramento para avaliar qual a área da organização mais adequada para prestar esclarecimentos.
Na sequência desse pedido, o VOX enviou um conjunto detalhado de questões à Super Bock Group, questionando a empresa sobre a receção da denúncia, a eventual abertura de averiguações internas, a utilização da viatura de serviço, o conhecimento de processos judiciais envolvendo o colaborador e as medidas eventualmente adotadas na sequência dos factos relatados.
A redação informou igualmente a empresa de que tinha acesso à documentação remetida à administração em outubro de 2023 e concedeu prazo para resposta.
Contudo, até ao momento da publicação desta notícia, a Super Bock Group não respondeu a nenhuma das questões colocadas pelo VOX, não tendo prestado qualquer esclarecimento sobre os factos relatados nem sobre a forma como reagiu à denúncia recebida.
Denunciante acusa empresa de nada ter feito
Para Pedro, o silêncio agora mantido pela empresa é coerente com a reação que diz ter encontrado quando decidiu alertar a entidade patronal de Ezequiel Cabral.
O denunciante afirma que nunca recebeu qualquer informação sobre a abertura de averiguações internas, nunca foi contactado por representantes da empresa e nunca teve conhecimento de qualquer medida adotada na sequência da exposição enviada à administração.
Por essa razão, considera que a Super Bock Group optou por ignorar os alertas que lhe foram transmitidos e acusa a empresa de ter protegido o gestor ao não investigar devidamente as situações relatadas.
PSP arquivou participação
Também a participação apresentada à PSP não teve desenvolvimento judicial.
De acordo com Pedro, o processo acabou arquivado por as autoridades terem entendido que os factos descritos ocorreram em espaço público, não existindo impedimento legal para que Ezequiel Cabral permanecesse nesses locais ou circulasse nas imediações da residência do denunciante.
Pedro contesta essa interpretação. Sustenta que o problema nunca foi a mera presença em via pública, mas sim a repetição sistemática dos comportamentos ao longo de vários meses, num contexto marcado pelo conflito familiar e pelas suspeitas que o gestor alimentaria em relação à sua amizade com Ana.
Apesar das questões colocadas pelo VOX, a Super Bock Group optou por não esclarecer se alguma vez investigou internamente as alegações que lhe foram comunicadas em outubro de 2023.
Ministério Público descreve meses de insultos, ameaças e controlo sobre a ex-família
Ezequiel Cabral, gestor da Super Bock Group atualmente a exercer funções em Paris, começou a ser julgado no Tribunal Judicial da Comarca do Porto, onde responde pela alegada prática de dois crimes de violência doméstica agravada, um contra a ex-mulher e outro contra o filho menor.
Segundo a acusação do Ministério Público, os factos terão ocorrido entre julho e outubro de 2023, período durante o qual o arguido é acusado de ter mantido um padrão continuado de violência psicológica, intimidação, humilhação e controlo sobre a então esposa, recorrendo a insultos e ameaças, alguns dos quais alegadamente proferidos na presença dos filhos menores.
A acusação descreve ainda episódios em que Ezequiel Cabral terá tentado agredir a ex-mulher, ameaçado retirar-lhe os filhos e seguido a vítima com a viatura de serviço da empresa durante o horário laboral. Relativamente ao filho menor, o Ministério Público imputa-lhe alegadas agressões físicas e verbais, incluindo uma bofetada, puxões de cabelo e insultos.
Segundo a acusação do Ministério Público, Ezequiel Cabral dirigia repetidamente à então companheira expressões insultuosas e humilhantes, alegadamente chamando-lhe “monte de merda”, “puta”, “vaca” e “inútil”, entre outras expressões constantes do processo. A acusação refere ainda alegadas ameaças como “Vou-te esmagar. Vais ficar sem nada e sem ninguém” e “Ou é como eu quero ou tiro-te os meninos”, enquadrando-as num alegado padrão continuado de violência psicológica e controlo.
O processo inclui declarações para memória futura dos dois filhos do casal, prova testemunhal e relatórios periciais. Ezequiel Cabral nega a prática dos factos que lhe são imputados, cabendo agora ao tribunal apreciar a prova produzida em audiência e decidir sobre a sua responsabilidade criminal.