PSP identifica dezenas de clientes VIP em investigação ao “Uber da droga”
A Polícia de Segurança Pública (PSP) identificou dezenas de alegados consumidores de droga pertencentes a círculos mediáticos, empresariais e desportivos, na sequência da investigação que levou ao desmantelamento de uma rede de tráfico que operava em Lisboa através de um sistema de entregas ao domicílio semelhante ao modelo da Uber. Entre os clientes sinalizados encontram-se atores, concorrentes de reality shows, um atleta olímpico, funcionários da TAP e até pessoas ligadas ao meio televisivo e musical português.
Seis meses de vigilância
A operação resultou de cerca de seis meses de investigação conduzida pela Divisão de Investigação Criminal da PSP de Lisboa. Durante esse período, os investigadores acompanharam os movimentos de um traficante sediado na zona de Campolide, suspeito de abastecer um vasto conjunto de consumidores através de um serviço discreto de entrega personalizada.
Segundo as autoridades, o esquema funcionava de forma semelhante às plataformas de entrega ao domicílio. Os clientes faziam os pedidos através de mensagens em redes sociais, grupos de WhatsApp ou Telegram e recebiam posteriormente a droga na morada indicada. As entregas eram efetuadas de forma rápida e discreta, reduzindo a exposição dos consumidores e dos próprios traficantes.
Rede de consumidores inclui figuras públicas
Ao longo da investigação, a PSP terá identificado uma extensa carteira de clientes que incluía personalidades conhecidas do grande público. Embora os nomes não tenham sido divulgados pelas autoridades, as informações conhecidas apontam para a presença de atores, músicos, ex-concorrentes de programas televisivos, profissionais da aviação e um atleta olímpico entre os utilizadores do serviço.
Os investigadores recolheram imagens, registos de comunicações e elementos de prova que documentam encontros, entregas e contactos entre o suspeito e vários consumidores. Muitas das transações ocorreriam em festivais de música, eventos de música eletrónica e encontros privados frequentados por figuras públicas.
Comunicação em código
A PSP refere que boa parte das conversas entre traficante e clientes era realizada através de linguagem codificada. Os grupos privados nas aplicações de mensagens serviam para anunciar os produtos disponíveis, horários de entrega e formas de pagamento. Em muitos casos, as encomendas eram entregues em moradas alternativas ou através de intermediários para evitar associações diretas aos consumidores.
Este método permitia ao suspeito operar com relativa discrição, criando uma estrutura de distribuição descentralizada e adaptada às novas tecnologias, semelhante a outros casos recentes de tráfico “on demand” identificados pelas autoridades portuguesas.
Detenção e apreensões
A operação culminou com a detenção do principal suspeito e a realização de buscas domiciliárias. As autoridades apreenderam cerca de 1.590 doses individuais de cocaína, 3.320 doses de ecstasy, 2.260 doses de MDMA, 59 selos de LSD, mais de 18 mil euros em numerário, além de veículos, telemóveis e material utilizado para preparação e acondicionamento da droga.
Segundo a PSP, o suspeito utilizava regularmente uma mota de alta cilindrada e outros meios de transporte para realizar entregas rápidas em diferentes zonas da Área Metropolitana de Lisboa.
Investigação continua
Apesar das detenções já efetuadas, o processo está longe de encerrado. As autoridades continuam a analisar os contactos encontrados nos telemóveis apreendidos e os registos das plataformas digitais utilizadas pelo grupo. A investigação poderá conduzir à constituição de novos arguidos e ao apuramento de responsabilidades de consumidores identificados durante as vigilâncias.
Fontes policiais admitem que este poderá ser um dos processos relacionados com consumo e tráfico de droga envolvendo o maior número de figuras públicas em Portugal nas últimas décadas, embora a dimensão exata da rede apenas seja conhecida à medida que o inquérito judicial avance.