Montenegro celebrado com 94,8%, mas apoiado por apenas 25% dos militantes
Luís Montenegro foi reeleito presidente do PSD a 30 de maio de 2026 com 94,8% dos votos expressos, numa eleição direta em que concorreu sem adversários. À primeira vista, o resultado parece uma demonstração esmagadora de força interna. Mas os números completos contam uma história menos triunfal: dos 56.868 militantes com capacidade eleitoral, apenas 15.261 votaram. Ou seja, a participação ficou perto dos 27%, deixando a abstenção nos 73%.
O líder social-democrata recebeu 14.467 votos, enquanto houve 525 votos em branco e 269 nulos. Feita a conta ao total de militantes inscritos, o apoio efetivo a Montenegro representa cerca de 25,4% do universo eleitoral interno — muito longe da imagem de unanimidade sugerida pelos 94,8%.
A diferença está na forma como o resultado é apresentado. Oficialmente, contam-se os votos válidos expressos. Politicamente, porém, a dimensão da abstenção é impossível de ignorar. Quase três em cada quatro militantes do PSD ficaram fora da escolha do líder, num ato eleitoral sem concorrência interna.
Esta não é a primeira vez que Montenegro é reconduzido sem oposição. Em 2024, também como candidato único, foi reeleito com 97,45% dos votos, numa eleição em que votaram 16.602 militantes de um universo de 41.863, com uma abstenção próxima dos 60%.
O contraste com 2022 é relevante. Na altura, Montenegro enfrentou Jorge Moreira da Silva e venceu com cerca de 72%, numa eleição disputada que registou uma abstenção de 39,53%, segundo a RTP.
A leitura política é clara: quanto menor a disputa interna, maior tende a ser o peso do aparelho partidário. Dirigentes locais, autarcas, estruturas distritais, assessores e militantes mais mobilizados acabam por decidir eleições em que a maioria silenciosa não participa.
Ao mesmo tempo, voltou ao debate público a influência de redes discretas no poder político. Uma investigação citada pela imprensa apontou ligações atuais ou passadas à Maçonaria em membros do Governo, incluindo três ministros e quatro secretários de Estado, embora muitos desses casos sejam descritos como ligações antigas ou entretanto abandonadas.
Não há dados que permitam concluir que a Maçonaria explique os votos obtidos por Montenegro. Essa tese, apresentada de forma absoluta, não é demonstrável. O que existe é uma questão mais ampla e legítima: até que ponto redes de influência, relações pessoais e circuitos fechados condicionam o funcionamento dos partidos e do Estado?
A vitória de Montenegro é, portanto, formalmente indiscutível. Mas politicamente deixa uma pergunta incómoda: um líder pode ser apresentado como esmagadoramente legitimado quando só um quarto dos militantes com direito de voto o apoiou efetivamente?