Póvoa de Lanhoso rejeita ser cidade depois do maior orçamento da sua história

Meses depois de o município aprovar um orçamento recorde de 46 milhões de euros, que incluía a ambição de elevar a vila a cidade, a população travou a proposta em consulta pública.

A população da Póvoa de Lanhoso rejeitou a elevação da vila à categoria de cidade, numa consulta pública promovida pela Junta de Freguesia da Póvoa de Lanhoso entre 17 e 23 de maio.

Dos 882 cidadãos que participaram na auscultação, 752 votaram contra a mudança de estatuto administrativo, o que representa 85,3% dos votos expressos. Apenas 129 votaram a favor, correspondentes a 14,6%, tendo sido registado um voto nulo ou branco.

O resultado surge num momento politicamente sensível, uma vez que o processo de elevação da vila a cidade já se encontra na Assembleia da República, através do Projeto de Lei n.º 241/XVII. A Junta de Freguesia anunciou que irá agora elaborar um parecer com base nos resultados da consulta, que será remetido à Comissão da Reforma do Estado e Poder Local.

A proposta foi desencadeada pelo município, liderado por Frederico Castro, do PS, mas encontrou resistência na Junta de Freguesia da Póvoa de Lanhoso, presidida por Paulo Silva, do PSD. A divergência entre Câmara e Junta transformou o tema numa questão política local, mas a consulta veio acrescentar um dado difícil de ignorar: entre os cidadãos que participaram, a rejeição foi esmagadora.

A decisão popular ganha ainda maior peso quando contextualizada com a estratégia municipal apresentada para 2026. Em dezembro de 2025, a Assembleia Municipal aprovou o maior orçamento da história da Póvoa de Lanhoso, no valor de 46,03 milhões de euros. O documento representava um aumento de cerca de 14 milhões face a 2025, uma subida de aproximadamente 44%.

Nesse orçamento, o executivo municipal assumia como objetivo “garantir o aumento do prestígio e do potencial do concelho no quadro regional e nacional”, também através da elevação da Póvoa de Lanhoso à categoria de cidade.

A consulta pública cria, por isso, um forte contraste entre a ambição política do executivo e a vontade expressa pelos cidadãos que votaram. De um lado, uma estratégia municipal assente em investimento, obras, afirmação regional e mudança de estatuto. Do outro, uma população que, chamada a pronunciar-se, disse maioritariamente “não”.

Apesar do resultado, a decisão final caberá à Assembleia da República. Ainda assim, a mensagem deixada pela consulta é clara: para a maioria dos participantes, a Póvoa de Lanhoso deve continuar vila.

O debate está longe de terminar, mas a votação veio colocar uma pergunta no centro da discussão: pode uma terra ser elevada a cidade contra a vontade expressa da sua própria população?

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