Alfredo Cunha. O homem do 25 de Abril vive aqui?
Alfredo Cunha, autor de imagens icónicas da Revolução, vive há décadas em Coucieiro, Vila Verde.
Alfredo de Almeida Coelho da Cunha nasceu a 8 de outubro de 1953, em Celorico da Beira, e a sua biografia começa literalmente numa família de ofício: o Arquivo Municipal de Lisboa descreve-o como filho e neto de fotógrafos, com contacto precoce com a câmara, o laboratório e a fotografia comercial ainda na infância. A partir de 1970, iniciou atividade profissional na agência Praxis; em 1971 colaborava com o Notícias da Amadora; em 1972 entrou para os quadros de O Século e do Século Ilustrado; em 1974 realizou a reportagem que o transformaria num nome incontornável da memória visual portuguesa, o 25 de Abril; em 1975 documentou a descolonização; mais tarde foi fotógrafo oficial de Ramalho Eanes e de Mário Soares, editor fotográfico no Público, na Edipresse, no Jornal de Notícias e diretor fotográfico da Global Imagens, antes de se afirmar como freelancer e autor de projetos editoriais próprios.
A ligação de Alfredo Cunha ao concelho de Vila Verde não é de naturalidade, mas de residência escolhida, de trabalho continuado e de reconhecimento público. As fontes abertas consultadas indicam que vive há várias décadas em Coucieiro, no concelho de Vila Verde; a presidente da Câmara chegou a tratá-lo como “vila-verdense por adoção”, e a imprensa local passou a chamá-lo repetidamente “fotógrafo vilaverdense”. Essa ligação materializou-se em pelo menos três planos: na residência, na documentação persistente da romaria de Santo António de Mixões da Serra durante mais de vinte anos, e numa agenda cultural contínua no concelho — exposições, apresentações de livros, tertúlias e projetos pedagógicos inspirados na sua obra.
Do ponto de vista nacional, Alfredo Cunha é um dos principais construtores da iconografia do 25 de Abril, com imagens hoje preservadas em arquivos públicos e privados de primeira linha, e retomadas nas comemorações oficiais dos 50 anos da Revolução. Do ponto de vista local, o caso de Vila Verde mostra algo mais raro: um grande fotógrafo nacional que, não sendo dali, ajudou a fixar visualmente uma tradição do concelho e a devolvê-la ao próprio concelho como património cultural. A Medalha de Mérito Municipal em Ouro de Vila Verde, aprovada em 2020 e formalmente assinalada em 2021, e a Medalha de Mérito Cultural do Governo, entregue em 21 de maio de 2025, resumem bem esta dupla escala de reconhecimento.
Biografia narrativa
A autoridade biográfica mais densa em linha localizada para este relatório é a ficha do Arquivo Municipal de Lisboa. Aí se lê que Alfredo Cunha nasceu em Celorico da Beira, a 8 de outubro de 1953, “filho e neto de fotógrafos dessa cidade e da Guarda”, e que aos sete anos já ajudava o pai a imprimir fotografias “tipo passe”, passando depois por reportagens de casamentos e laboratório. É uma origem importante para compreender o seu percurso: antes de ser fotojornalista, Alfredo Cunha aprendeu a fotografia como trabalho manual, disciplina técnica e relação de proximidade com as pessoas.
O início formal da carreira ocorre em 1970, na agência de publicidade Praxis. Em 1971 surge o Notícias da Amadora; em 1972, O Século e Século Ilustrado. Nesses anos iniciais, a tensão entre reportagem social e censura já está presente. Segundo a ficha do Arquivo Municipal de Lisboa, o seu livro Raízes da Nossa Força, dedicado a crianças dos bairros de lata da região de Lisboa, foi apreendido pela PIDE por conter “incitamento ao levantamento das populações”. Esse dado é mais do que anedótico: mostra que, muito antes de Abril de 1974, o olhar de Alfredo Cunha estava orientado para a desigualdade social, para a periferia urbana e para aquilo que o regime não queria ver divulgado.
A grande viragem chega em 1974. Ainda muito jovem, Alfredo Cunha fotografou os acontecimentos de 25 de Abril em Lisboa e, nos anos imediatos, prolongou esse trabalho na documentação do PREC e da descolonização africana. A mesma ficha de autoridade regista que a primeira grande reportagem deu origem à exposição Portugal Livre, no Palácio Foz e na Galeria do Casino Estoril, e que em 1975 fez reportagem sobre a descolonização nos países africanos em processo de independência. Na memória pública portuguesa, esta fase converteu-o num dos grandes autores do “antes”, do “durante” e do “depois” de Abril.

Depois dos anos quentes da Revolução, a carreira estabilizou e ampliou-se. Entrou para a ANOP em 1977, transitou para a Notícias de Portugal em 1982, entrou na Lusa em 1987, participou na fundação do Público em 1989, trabalhou em contextos editoriais diversos ao longo das décadas de 1990 e 2000, colaborou com Ana Sousa Dias no programa Por Outro Lado da RTP2, e chegou ao Jornal de Notícias e à Global Imagens antes de seguir em regime independente. As biografias institucionais consultadas convergem em dois grandes marcos complementares: a reportagem de acontecimentos históricos e a edição fotográfica em redações centrais do jornalismo português.
Também os palácios presidenciais passaram pela sua lente. A ficha do Arquivo Municipal de Lisboa situa Alfredo Cunha como fotógrafo oficial de António Ramalho Eanes entre 1976 e 1978 e como fotógrafo oficial de Mário Soares ao longo dos seus dois mandatos, até 1996. Essa proximidade ao poder não anulou, porém, o impulso documental para o social e o popular; pelo contrário, o seu percurso alterna continuamente entre chefes de Estado, multidões, bairros precários, procissões, guerra, retrato e mundo rural.
Num retrato mais íntimo, Alfredo Cunha explicou à Renascença que a genealogia pesa, mas não aprisiona: “O meu avô era fotógrafo, o meu pai era fotógrafo”, disse, acrescentando que percorreu “todas as áreas da fotografia”. A mesma entrevista insiste em dois aspetos decisivos: a abrangência do seu trabalho e a recusa de fronteiras rígidas entre fotografia de imprensa, fotografia comercial, retrato e criação autoral.
Quanto à formação académica, há uma lacuna documental relevante. As principais fontes biográficas abertas consultadas para este relatório – Arquivo Municipal de Lisboa, Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, página de autor da Tinta-da-China, entrevistas ao Diário de Notícias e à Renascença – descrevem em detalhe a infância, a iniciação técnica, os jornais, as agências e as exposições, mas não indicam curso superior, escola formal de fotografia ou outra formação académica especificamente identificada. Assim, esse ponto deve ser dado, com rigor, como não especificado nas fontes abertas verificadas.
A obra fotográfica e a linguagem visual
Se há uma data que organiza toda a leitura crítica de Alfredo Cunha, ela é o 25 de Abril. A Euronews escreveu, a propósito dos 50 anos da Revolução, que durante três dias ele não foi a casa e que o conjunto de imagens produzido nesses dias é “um dos mais completos testemunhos do 25 de Abril para as gerações seguintes”. O Diário de Notícias recolheu dele um testemunho ainda mais direto: “Foi o dia mais feliz da minha vida.” Não se trata apenas de uma frase memorialista; trata-se de uma chave para perceber a intensidade de um trabalho que nasce da coincidência improvável entre juventude, reportagem e acontecimento fundador.

A iconografia de Abril em Alfredo Cunha não se resume a uma fotografia, mas algumas tornaram-se quase totémicas. A Casa Comum identifica, no seu fundo Alfredo Cunha, imagens da ocupação da Praça do Comércio pela Escola Prática de Cavalaria, do cerco ao Largo do Carmo e da tomada da PIDE-DGS pelo MFA; o próprio fotógrafo, em entrevista à Euronews, disse do célebre retrato de Salgueiro Maia que ele mostra “o momento em que o homem se transforma no mito”. A força destas imagens está na combinação rara de valor documental, legibilidade simbólica e energia humana: elas informam, mas também cristalizam uma ideia visual da Revolução.
O 25 de Abril é o centro canónico da obra, mas não o seu único território. A própria síntese biográfica do Arquipélago destaca, entre os seus temas recorrentes, a descolonização portuguesa e a Guerra do Iraque; a Renascença acrescenta a fome, os refugiados, os retratos e a “alma portuguesa”; o Diário de Notícias lembra ainda a vasta galeria de retratos de figuras públicas, o trabalho com a AMI e a opção persistente pelo preto e branco. A escala do arquivo ajuda a medir a amplitude deste percurso: em 2017, o DN escrevia que, dos mais de três milhões de imagens catalogadas do autor, foram escolhidas cerca de 500 para a retrospetiva Tempo Depois do Tempo.
Formalmente, o traço mais reconhecível de Alfredo Cunha é o preto e branco assumido como linguagem de base. Ao DN, afirmou sem hesitação: “A minha linguagem, a minha forma de expressão é o preto e branco”; no texto do Centro Português de Fotografia, Teresa Siza observa que, mesmo tendo transitado do analógico para o digital a partir de 2003, ele manteve uma fidelidade longa às Leica e ao poder de sedução da imagem para lá da notícia imediata. A mesma nota crítica sugere que o seu estilo se situa num ponto singular: nasce do fotojornalismo, mas resiste a ser reduzido a “estilo de época” ou simples ilustração do acontecimento.
Essa leitura é aprofundada por Maria do Carmo Serén na folha de sala de Tempo Depois do Tempo. Para a historiadora, o Alfredo Cunha do 25 de Abril herda um olhar humanista próximo da tradição Magnum, visível no “sentido épico do momento”, na centralidade do homem comum e na “tranquilidade feliz na solidariedade”; mais adiante, na década de 1990, o seu trabalho torna-se mais subjetivo, simbólico e aberto à perceção do observador, sem perder o núcleo ético da dignidade humana. É uma descrição crítica convincente porque encaixa tanto nas imagens revolucionárias como nas fotografias do “Portugal profundo”, nas reportagens internacionais e nos retratos.

O próprio fotógrafo define de forma seca o seu critério de qualidade. Numa entrevista a O Minho, disse que uma boa fotografia é “a verdade”, acrescentando que ela precisa de ação, emoção e verdade para merecer o interesse do público. Essa tríade — verdade, emoção, legibilidade — aparece de forma transversal na sua obra: dos rostos anónimos nas ruas de Lisboa aos chefes de Estado, dos soldados de Abril aos romeiros de Mixões da Serra, há sempre uma economia visual que evita o efeito gratuito e procura fixar um instante exemplar.
Exposições, livros, arquivos e distinções
A carreira expositiva de Alfredo Cunha acompanha praticamente toda a sua atividade profissional. O Arquivo Municipal de Lisboa regista já uma exposição na Livraria Opinião em 1973; depois, Portugal Livre em 1974; Naquele Tempo em 1995; A Norte no Centro Português de Fotografia em 1998; a grande retrospetiva Tempo Depois do Tempo em 2017; 50 anos de fotografia – 1970-2020 no CPF; Leica Years em vários momentos; e, mais recentemente, A Work in Progress, Portugal 1973-2023 e a exposição itinerante 25 de Abril de 1974, Quinta-feira, inscrita nas comemorações oficiais dos 50 anos de Abril.

No plano editorial, Alfredo Cunha publicou dezenas de livros desde os anos 1970. Entre os mais significativos, pela documentação aberta verificada, contam-se Raízes da Nossa Força (1972), A Bênção dos Animais de Santo António Mixões da Serra (2021), Alfredo Cunha e Porto 2001/2021 (2022), 25 de Abril de 1974, Quinta-feira (2023), Paraíso de Coura (2024) e Mário Soares, 100 Anos (2024). O livro de 2023 sobre o 25 de Abril foi apoiado pela Comissão Comemorativa 50 Anos 25 Abril e reúne fotografias de Cunha, textos de Adelino Gomes, Carlos Matos Gomes e Fernando Rosas, prefácio de Luís Pedro Nunes e intervenções visuais de Vhils.

A situação documental da Medalha de Mérito Cultural merece uma nota própria. O GEPAC descreve esta medalha como o principal galardão atribuído pela tutela da cultura; o enquadramento legal e comemorativo foi reforçado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 47/2021, publicada no Diário da República. Para o caso concreto de Alfredo Cunha, a prova aberta que localizamos foi a notícia oficial da Cultura de 22.05.2025, relativa à cerimónia de 21.05.2025, e a reconstituição jornalística da Lusa/RTP com a formulação da tutela. Nas pesquisas abertas efetuadas para este relatório, não foi localizado um despacho individual no Diário da República com o nome de Alfredo Cunha, embora tenha sido localizado o enquadramento jurídico geral da medalha.

Também há um ponto documental em aberto quanto a alguns prémios fotográficos. A ficha de autoridade do AML refere “vários prémios Fuji e Visão”, mas não discrimina anos nem designações completas para todos eles. Por essa razão, só incluímos na tabela acima as distinções para as quais encontramos formulação e/ou data suficientemente explícitas nas fontes abertas consultadas.

Entre os melhores acessos em linha para consultar a obra estão o fundo Alfredo Cunha no Arquivo Municipal de Lisboa, a lista de arquivos e coleções do CPF e vários itens da Casa Comum, incluindo imagens identificadas como “a Praça do Comércio tomada pelo MFA”, “forças do MFA selam o acesso ao Largo do Carmo” e “tomada da PIDE-DGS pelo MFA”. São, na prática, as portas de entrada mais úteis para um leitor que queira passar do discurso crítico ao documento visual.
Vila Verde enquanto lugar de vida e trabalho
A investigação específica sobre a ligação de Alfredo Cunha a Vila Verde permite uma conclusão clara. Ele não nasceu em Vila Verde: nasceu em Celorico da Beira, e a genealogia profissional documentada aponta para fotógrafos de Celorico da Beira e da Guarda. A sua relação com Vila Verde é posterior e eletiva, assente na residência, na família constituída no concelho e em projetos culturais de longo prazo. Em 2025, A imprensa local escrevia que nasceu em Celorico da Beira, mas vive “há várias décadas” em Coucieiro, Vila Verde; em 2024, a mesma publicação, citando a presidente da Câmara, falava de um homem que “mora em Vila Verde há 30 anos”.
O próprio Alfredo Cunha formulou essa pertença com notável clareza na apresentação do livro e da exposição A Bênção dos Animais de Santo António Mixões da Serra, na Biblioteca Municipal de Vila Verde, em junho de 2021: “Quando me perguntam se agora vivo em Vila Verde, digo que sou fotógrafo de Vila Verde.” Na mesma sessão, explicou ainda que a escolha de viver ali abriu “o tempo mais produtivo” da sua vida profissional. Ou seja: Vila Verde não surge apenas como morada; surge como território de reorganização criativa e como matéria-prima de um novo ciclo da obra.

O grande projeto vila-verdense de Alfredo Cunha é, sem dúvida, o da romaria de Santo António de Mixões da Serra, na freguesia de Valdreu. A Câmara Municipal de Vila Verde sublinha que ele a fotografou durante mais de vinte anos, tornando-se amigo do padre António Marques, figura determinante na revitalização contemporânea da romaria. O Gerador acrescenta que o tema já deu origem a milhares de fotografias, a dois livros e a várias exposições, sendo a mostra de Lisboa a terceira sobre o assunto. Não é um trabalho lateral: é um corpo coerente que documenta um ritual central do património imaterial do concelho e o projeta para fora dele.
A formalização municipal deste vínculo aconteceu no campo das condecorações. A notícia oficial do município sobre as homenagens do 165.º aniversário do concelho informa que o executivo aprovou, em reunião ordinária de 22 de outubro de 2020, a atribuição de condecorações a várias personalidades; na sessão solene do ano seguinte, a listagem oficial explicita que Alfredo Cunha recebeu a Medalha de Mérito Municipal em Ouro “pelo desenvolvimento de um projeto fotográfico sobre a peculiar Romaria de Santo António Mixões da Serra”. O detalhe é importante: a justificação não é genérica nem meramente honorífica; está ancorada num projeto concreto e local.
A receção simbólica do fotógrafo em Vila Verde foi ainda mais longe. Na apresentação de 2021, o então presidente António Vilela chamou-lhe “embaixador de Vila Verde pelo mundo”, defendendo que o trabalho sobre Mixões ajuda a eternizar “a genuinidade das nossas gentes e das nossas tradições”. Em paralelo, a edição bibliográfica desse projeto ficou registada na Bibliografia Nacional Portuguesa como livro do Município de Vila Verde, com textos de Júlia Fernandes e Adélia Santos. Em termos de política cultural local, trata-se de um caso exemplar de colaboração entre um autor de projeção nacional e uma autarquia que decide transformar um ensaio fotográfico num objeto de memória municipal.
A ligação a Vila Verde não se esgota, contudo, em Mixões da Serra. Em março de 2024, a Biblioteca Municipal Professor Machado Vilela recebeu a exposição 25 de Abril de 1974, Quinta-feira e a apresentação do livro homónimo, integradas no programa concelhio dos 50 anos da Revolução. A Câmara Municipal apresentou Alfredo Cunha como “o fotógrafo que registou as imagens mais icónicas da revolução de Abril”, e a mostra ficou patente até 28 de junho. No mesmo programa comemorativo, a Casa do Conhecimento de Vila Verde promoveu a tertúlia “E se o 25 de Abril fosse hoje?”, com Alfredo Cunha e o vice-reitor da Universidade do Minho, num encontro dirigido também a alunos do ensino secundário e profissional.
A imprensa local e regional mostra como essa presença se converteu em influência cultural. O Vilaverdense cobriu a apresentação do livro e da exposição de 2024, sublinhando a fala de Cunha sobre os “18 meses muito intensos” entre a Revolução e a formação do primeiro governo de transição, e insistindo na ideia de “viagem no tempo”; O Minho publicou uma longa entrevista em 2020 ao “conceituado fotógrafo residente há vários anos em Vila Verde”; em 2024, estudantes de Prado montaram uma exposição fotográfica inspirada nas imagens de Alfredo Cunha sobre Abril; e o programa municipal das comemorações locais fez das suas fotografias um dos eixos principais da mediação intergeracional do cinquentenário. O que isto mostra é que, em Vila Verde, Alfredo Cunha já não é apenas alguém que vive no concelho: é alguém cuja obra é usada para ensinar, recordar e representar o concelho.
Cronologia e balanço crítico
A cronologia seguinte sintetiza os principais marcos biográficos de Alfredo Cunha e os principais pontos documentados da sua relação com Vila Verde, com base nas fontes biográficas, arquivísticas, governamentais e municipais citadas ao longo deste relatório.

No plano nacional, o impacto cultural de Alfredo Cunha é triplo. Primeiro, é um impacto historiográfico: as suas imagens do 25 de Abril, do PREC e da descolonização não apenas ilustram livros escolares ou reportagens comemorativas, ajudam efetivamente a construir a memória visual desses processos. Segundo, é um impacto institucional: o seu trabalho está em arquivos estruturantes, como o Arquivo Municipal de Lisboa, o Centro Português de Fotografia e a Fundação Mário Soares, e continua a ser reativado por museus, galerias e programas públicos. Terceiro, é um impacto simbólico: a Medalha de Mérito Cultural de 2025, a Comenda de 1996 e a constante reutilização da sua obra em exposições oficiais confirmam-no como uma referência estável da fotografia portuguesa contemporânea.
No plano local, o caso de Vila Verde é especialmente interessante porque não assenta na origem, mas na adoção e na reciprocidade. O concelho deu-lhe residência, matéria humana, paisagem ritual e reconhecimento institucional; Alfredo Cunha devolveu ao concelho um arquivo denso sobre Mixões da Serra, a projeção pública dessa tradição em Lisboa e noutros contextos, e uma presença cívica regular em bibliotecas, escolas e equipamentos culturais. A influência local da sua obra não reside apenas no prestígio de ter um grande nome a morar em Coucieiro; reside no facto de a sua fotografia ajudar Vila Verde a narrar-se a si própria.
A conclusão mais rigorosa é, por isso, também a mais simples. Alfredo Cunha não é um filho natural de Vila Verde, mas tornou-se, documental e culturalmente, um dos seus intérpretes mais consequentes. A sua relação com o concelho é menos genealógica do que cívica; menos administrativa do que afetiva e produtiva; menos episódica do que estrutural. Se o 25 de Abril o colocou na história nacional, Vila Verde deu-lhe um dos lugares onde a obra amadureceu, se enraizou e voltou a encontrar, nas festas, nos animais, nos rostos e na memória coletiva, a razão profunda da sua fotografia: a dignidade do real.
Notas de verificação documental: a naturalidade, a data de nascimento e a linhagem familiar estão firmemente documentadas; a residência em Vila Verde e em Coucieiro está repetidamente documentada por fontes locais; a Medalha de Mérito Municipal em Ouro está sustentada por registos oficiais da Câmara; a Medalha de Mérito Cultural está confirmada por fonte oficial governamental e por peça Lusa/RTP; a publicação individual do respetivo despacho no Diário da República não foi localizada nas pesquisas abertas efetuadas; a formação académica formal de Alfredo Cunha permanece não especificada nas biografias abertas consultadas; e as datas exatas de alguns prémios Fuji/Visão também não surgem discriminadas nessas fontes. Foram verificados, entre outros, o Arquivo Municipal de Lisboa, o Centro Português de Fotografia, a Fundação Mário Soares / Casa Comum, o portal Cultura Portugal, o GEPAC, a Câmara Municipal de Vila Verde, a Câmara Municipal de Tavira e diferentes órgãos de comunicação social.