Bento Morais, o homem que mudou Vila Verde
Há dirigentes cuja marca se esgota no tempo do cargo. E há outros cuja obra altera a escala da instituição, muda a paisagem social em redor e deixa um legado tangível em edifícios, serviços, emprego e confiança pública. Em Vila Verde, Bento Morais pertence claramente à segunda categoria. Ao longo de quase três décadas à frente da Santa Casa da Misericórdia, construiu uma liderança que, pelas fontes locais e institucionais, aparece menos como exercício de representação e mais como uma sucessão de provas dadas: hospital recuperado, respostas sociais ampliadas, equipamentos modernizados, projetos em obra e uma instituição que hoje se mede em milhares de pessoas apoiadas todos os dias.

O ponto de partida ajuda a perceber a dimensão da mudança. Na evocação institucional dos seus vinte anos de mandato, Bento Morais recordou que encontrou, em 1997, “cerca de 60 idosos, 60 crianças e 54 colaboradores”. O hospital, devolvido pelo Ministério da Saúde, estava, segundo o próprio, “sem funcionar” e em mau estado de conservação depois da abertura do novo centro de saúde. A primeira tarefa foi quase elementar e, por isso mesmo, decisiva: limpar, pintar, beneficiar, negociar com a ARS Norte e devolver utilidade a um edifício que poderia ter ficado como ruína administrativa. O reinício hospitalar em 1997, com apoio institucional da tutela e novas contratações de médicos, enfermeiros e auxiliares, tornou-se a pedra angular do que viria depois.

A partir daí, Bento Morais foi moldando uma cultura de gestão que as páginas oficiais da instituição resumem numa fórmula simples e eficaz: “Fazer bem, fazendo o bem”. Essa fórmula não é mera retórica institucional. Nas comunicações públicas da Santa Casa, ela surge ligada a valores como solidariedade, dignidade humana, transparência, humanização e acessibilidade. Em paralelo, Bento Morais tem insistido num discurso muito centrado nas equipas: a qualidade dos serviços, sustenta a instituição, depende de colaboradores preparados, valorizados e reconhecidos. É um estilo de liderança que combina ambição infraestrutural com linguagem de proximidade e cuidado, algo particularmente visível nas respostas continuadas e residenciais, onde os testemunhos públicos valorizam repetidamente o acolhimento humano e a sensação de “família”.

Na saúde, a marca do seu mandato é inequívoca. A remodelação e ampliação integral do hospital, concluída em 2015, representou, segundo Bento Morais, um salto estrutural que duplicou a capacidade da unidade e modernizou o bloco operatório. Em 2024, a Santa Casa reportou 32,165 milhões de euros em serviços prestados, mais 8,1% do que no ano anterior, e destacou um investimento de cerca de 1,2 milhões de euros em novos equipamentos, incluindo atualização da ressonância magnética, novo raio-X e tecnologia laser para o bloco operatório. A leitura que emerge dos documentos e da imprensa regional é a de uma instituição que cresceu sem abdicar da atualização tecnológica e que soube converter a lógica misericordiosa tradicional numa oferta clínica com escala e exigência.

A validação externa reforça essa leitura. A página institucional dedicada à excelência clínica sublinha distinções do SINAS em várias áreas, e a imprensa regional reportou, em 2024, que o Hospital da Misericórdia de Vila Verde foi o melhor desempenho do setor social no cumprimento das cirurgias programadas no primeiro semestre de 2023, com 100% de realização. Quando se junta este desempenho a uma procura diária superior a 1.200 doentes, segundo a imprensa, percebe-se por que motivo a instituição ganha peso muito para lá da escala concelhia. Em vez de uma misericórdia confinada ao assistencialismo residual, Bento Morais ajudou a consolidar uma organização híbrida: social na missão, mas exigente no plano operacional e clínico.
Se a saúde é a espinha dorsal do legado, a ação social é o seu alargamento mais expressivo. O projeto educativo da instituição mostra continuidade na área da infância desde 1974 e documenta a abertura do Colégio D. João de Aboim ao 1.º ciclo, com capacidade para 200 crianças e investimento de cerca de 1,5 milhões de euros. Em 2024, a ERPI de Marrancos, inaugurada com presença da ministra Ana Mendes Godinho, acrescentou 40 lugares para idosos num investimento de 2,9 milhões, com 1,2 milhões apoiados pelo PARES. Em 2025, a Misericórdia abriu duas novas creches, em Soutelo e Marrancos, com 88 lugares, investimento global de 1,6 milhões e criação de 20 postos de trabalho. E o ritmo não abrandou: a contratação pública para uma nova ERPI e para a ampliação do CACI em Vila Verde, com preço base de 2.929.200 euros, somou-se ao anúncio de uma nova unidade de hemodiálise e de novas respostas de cuidados continuados. Em todos estes dossiers, a linha de continuidade é nítida: mais capacidade, maior cobertura territorial e reforço do papel da Santa Casa como infraestrutura social central do concelho.

A reputação pública de Bento Morais assenta também em reconhecimento externo. Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas, descreveu a Santa Casa de Vila Verde como um “exemplo” no percurso das políticas sociais e, noutra ocasião, sublinhou o “dinamismo” e a “força” da instituição. Júlia Fernandes, presidente da Câmara, qualificou-a como referência “em Vila Verde, na região e no país”. Ana Mendes Godinho chamou-lhe “um exemplo extraordinário”. Numa outra escala, mais íntima mas não menos reveladora, familiares de utentes elogiam publicamente equipas que “fazem com que se torne uma família” ou destacam “dedicação” e “acompanhamento”.
O retrato fica menos completo quando se sai da esfera institucional e se entra na biografia pessoal. Não foi localizada, em acesso aberto, uma ficha biográfica oficial com data de nascimento, local de origem confirmado, percurso académico detalhado ou carreira anterior plenamente documentada. Mas essa lacuna não apaga o essencial do percurso público: em Vila Verde, Bento Morais tornou-se menos conhecido pela autobiografia do que pela obra. E a obra, essa, é mensurável: partiu de uma instituição pequena e conduziu-a a uma estrutura com milhares de beneficiários, centenas de trabalhadores, investimento continuado, reconhecimento externo e uma capacidade invulgar de juntar hospital, envelhecimento, infância, deficiência e resposta comunitária sob o mesmo comando. Se a medida de um provedor é aquilo que deixa à comunidade, Bento Morais deixa, no mínimo, uma Santa Casa maior, mais moderna e mais central na vida de Vila Verde.

Momento histórico: Coro da Misericórdia de Vila Verde visitou Santa Casa de Macau nas comemorações dos 450 anos

No âmbito das celebrações dos 450 anos da sua fundação em 2019, a Santa Casa da Misericórdia de Vila Verde realizou uma visita institucional à Santa Casa da Misericórdia de Macau, num encontro que ficou igualmente assinalado pela forte componente cultural, com destaque para as atuações do Coro da instituição vila-verdense. Foi um momento único dinamizado pelo Provedor Bento Morais junto da União das Misericórdias Portuguesas, sendo o representante entre centenas de Misericórdias de todo o mundo. Realizou-se também o 12º Congresso da Confederação Internacional das Misericórdias.
O grupo coral da Misericórdia de Vila Verde apresentou um conjunto de interpretações musicais em diferentes momentos do programa comemorativo, envolvendo não só cerimónias institucionais como também iniciativas abertas à comunidade local. O repertório, marcado por música coral de inspiração sacra e tradicional portuguesa, foi recebido com grande apreço pelo público presente, sublinhando o carácter simbólico da partilha cultural entre Portugal e Macau.
As atuações do coro serviram também como elemento de ligação entre passado e presente, reforçando a identidade histórica das Misericórdias e o seu papel na preservação do património cultural e espiritual associado à ação social. Em ambiente de celebração, a música foi apontada como uma linguagem universal capaz de aproximar instituições e povos, num contexto de intercâmbio internacional.
Durante a visita, a comitiva de Vila Verde participou ainda em reuniões institucionais e momentos de convívio com a congénere macaense, onde foram discutidas experiências e boas práticas na área social. No entanto, foi a vertente cultural, protagonizada pelo Coro da Misericórdia de Vila Verde, que acabou por marcar de forma especial esta deslocação.