Miguel Milhão: da Prozis às guerras culturais, media e futebol. O percurso do empresário que deixou de ser apenas empresário
Fundador da Prozis construiu uma das maiores marcas portuguesas de comércio online, passou pelo Vilaverdense FC, entrou no debate público com posições antiaborto, criou um podcast de influência política e, mais recentemente, financiou um novo jornal digital. Pelo meio, acumulou polémicas sobre benefícios fiscais, fundos públicos, anúncios televisivos e exposição mediática calculada.
Miguel Milhão deixou há muito de ser apenas o fundador da Prozis. O empresário, cujo nome completo é Eduardo Miguel Airosa Milhão, tornou-se uma figura pública de contornos pouco habituais em Portugal: industrial, comunicador, provocador político, financiador de media, rosto de campanhas antiaborto e antigo dirigente ligado ao futebol em Vila Verde.
Durante anos, foi sobretudo conhecido nos círculos empresariais como o homem que criou uma gigante da nutrição desportiva. Hoje, é também uma das figuras privadas que mais têm procurado ocupar espaço no debate público, sobretudo em temas como aborto, liberdade de expressão, Estado, impostos, direita política, media e intervenção cívica.
A Prozis apresenta-se como uma empresa focada no desenvolvimento de produtos ligados ao bem-estar, com processo vertical que inclui conceção, design, fabrico, controlo de qualidade, marketing, vendas, logística, software, fotografia, vídeo e distribuição. No site oficial, a marca afirma que tudo começou em 2007 com “um tipo louco numa garagem” e que hoje junta centenas, a caminho de milhares, de pessoas.
A história empresarial de Milhão, porém, começou antes da consolidação da Prozis. Segundo a Visão, o empresário tentou vários negócios quando era jovem adulto, incluindo venda de CD’s, roupa e uma loja em Braga chamada Sabores com Saúde, que acabou por falir. A mesma publicação refere que a ideia da Prozis nasceu depois de uma lesão sofrida quando praticava natação federada, altura em que se deparou com a falta e o preço elevado da nutrição desportiva em Portugal.
O arranque teve contornos quase mitológicos na narrativa empresarial: Miguel Milhão terá vendido o carro oferecido pelo pai (Eduardo Milhão) para juntar cerca de 25 mil euros e iniciar o projeto. O Dinheiro Vivo escreveu, em 2015, que Milhão fundou a Prozis em 2006, aos 23 anos, e que a empresa já então se apresentava como a maior loja de nutrição desportiva da Europa, com 47 milhões de euros de faturação em 2014, cerca de três mil encomendas diárias, mais de 800 mil clientes e presença em mais de cem mercados.

O crescimento do negócio teve uma forte componente tecnológica. A oportunidade, segundo o mesmo artigo, surgiu quando Milhão conheceu Jorge Silva, proprietário da empresa de software McWin, hoje identificado como CEO da Prozis. A loja online, a logística própria e a aposta internacional tornaram-se pilares do modelo. Em 2015, a empresa já tinha cerca de 240 trabalhadores e preparava expansão para mercados como Rússia, Médio Oriente e Estados Unidos.
O grupo cresceu muito além dos suplementos. O Jornal de Negócios descreveu a Prozis como um grupo que fatura cerca de 200 milhões de euros, tem 12 fábricas em Portugal e emprega mais de 1.500 pessoas, produzindo cereais, molhos, comidas congeladas, bebidas, roupa e até calçado.
A expansão internacional continua a fazer parte da estratégia. Em 2024, o ECO noticiou que a Prozis iria construir uma nova fábrica na Carolina do Sul, nos Estados Unidos, num investimento de cerca de 20 milhões de euros, com previsão de entrada em funcionamento no final de 2025 e objetivo de faturar entre 20 e 40 milhões de dólares por ano nessa unidade.
O lado Vila Verde: Prozis Football Academy e Vilaverdense FC
A ligação de Miguel Milhão a Vila Verde não se resume à fama local do empresário. Em 2015, a Prozis Football Academy e o Vilaverdense Futebol Clube assinaram um protocolo de cooperação no estádio do clube, em Vila Verde, para captação, formação e desenvolvimento de futebolistas de elite. Na altura, Miguel Milhão surgia como presidente da Prozis Football Academy e também como vice-presidente do Vilaverdense FC.

O projeto prometia integrar atletas da academia na alta competição e permitir ao Vilaverdense receber jogadores de elevado potencial. A mesma cerimónia serviu para apresentar a Prozis como patrocinadora do clube na época 2015/2016.
A Prozis Football Academy foi fundada em 15 de junho de 2015, em Vila Verde, com Miguel Milhão como presidente.
Em 2016, houve alterações no Vilaverdense, com Eduardo Milhão a assumir a presidência do clube e António Barbosa, antigo treinador da Prozis Academy, a ser escolhido para orientar a equipa principal no Campeonato de Portugal. O objetivo assumido passava por colocar o clube minhoto nas ligas profissionais no prazo de dois anos.

A ligação familiar e empresarial ao clube acabaria por se desfazer. Em maio de 2018, Eduardo Milhão viria a demitir-se da direção do FC Vilaverdense e a Prozis, empresa de Miguel Milhão, terminaria também a ligação ao clube, depois de ter patrocinado o emblema durante os dois anos anteriores.
O Vilaverdense viveria depois outro ciclo, já com a entrada do projeto Länk, sem ligação pública direta encontrada a Miguel Milhão. Esse ciclo terminou com uma queda desportiva pesada. Em abril de 2026, o clube sofreu a terceira descida consecutiva, depois de ter estado na II Liga em 2023/24, caindo depois para a Liga 3, Campeonato de Portugal e agora para a Pró-Nacional da AF Braga.
A crise financeira também ganhou destaque. O Vilaverdense assumiu dívidas de quase 1,5 milhões de euros e propôs pagar atletas num plano a 12 anos. Dias depois, o administrador de insolvência considerava a insolvência culposa, referindo um passivo corrente de 1,6 milhões de euros a 30 de junho de 2025.
O salto para a polémica nacional: aborto, influencers e “recursos ilimitados”
O momento que colocou Miguel Milhão no centro da discussão nacional ocorreu em junho de 2022, após a decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos que reverteu a proteção constitucional do direito ao aborto. Milhão publicou no LinkedIn uma mensagem a celebrar a decisão, escrevendo que os bebés por nascer tinham recuperado direitos nos EUA e que “a natureza está a curar-se”.

A reação foi imediata. Várias figuras públicas e influenciadoras que trabalhavam com a Prozis terminaram parcerias. A Visão referiu nomes como Jessica Athayde, Diana Monteiro, Sara Vicário e Tânia Argent. A MAGG e a PME Magazine noticiaram também a saída de várias embaixadoras e influenciadoras, incluindo Diana Monteiro, Marta Melro e Rita Belinha.
Perante a polémica, Milhão reagiu de forma pouco convencional. Segundo a Visão, no seu espaço de podcast referiu-se aos críticos com expressões insultuosas e afirmou que não precisava de Portugal nem da Prozis, acrescentando que tinha “recursos ilimitados”. Também disse que a Prozis era uma empresa internacional e que cerca de 85% da atividade estava ligada à exportação.
O Jornal de Negócios escreveu, em 2022, que Milhão afirmou ter a certeza de que o “post” antiaborto teve impacto benéfico na empresa, com as vendas a continuarem a crescer, e disse que a Prozis tinha perdido 11 influencers em Portugal, mas nenhum dos 10 mil parceiros fora do país.
A polémica não travou a exposição pública do empresário. Pelo contrário. A Sábado escreveu que, depois desse episódio, Milhão deixou de ser um empresário discreto e passou a ser uma microcelebridade no X/Twitter, lançou o podcast CdK — Conversas do Karalho, comprou anúncios televisivos e começou a construir uma plataforma de intervenção pública.
Anúncios televisivos, “dia da fecundação” e milhares de queixas
Em 2024, Miguel Milhão comprou um espaço publicitário em televisão para assinalar o que chamou o seu “dia da fecundação”. A Marketeer escreveu que o anúncio foi transmitido na RTP1 durante o intervalo da final da Taça de Portugal entre FC Porto e Sporting.

A NiT noticiou que esse spot, de 20 segundos, foi exibido nos quatro canais generalistas e que o custo tabelado rondaria quase 4 milhões de euros, embora esse valor corresponda ao preço de tabela e não necessariamente ao montante efetivamente pago.
Em 2025, a polémica regressou com o anúncio “Obrigado, Mãe”, atribuído a “Guru Mike Billions”, persona pública usada por Miguel Milhão. A Renascença noticiou que a ERC recebeu mais de 9.000 participações e abriu um procedimento de averiguações à transmissão do anúncio contra o aborto exibido na TVI, CNN, Now e CMTV.
A RTP também noticiou a abertura do procedimento de averiguações pela ERC, referindo que o anúncio era da autoria de Miguel Milhão, fundador da Prozis e assumidamente antiaborto.
Segundo o DN/Lusa, a RTP e a SIC garantiram não ter exibido esse anúncio, apesar de queixas inicialmente anunciadas também contra essas estações. A publicidade foi transmitida pelo menos pela TVI, CNN e CMTV.
Benefícios fiscais, fundos públicos e a contradição política
As críticas ao discurso anti-Estado de Milhão ganharam nova força quando surgiram notícias sobre benefícios fiscais e fundos públicos associados ao universo empresarial da Prozis.
A Sábado escreveu, em 2022, que o império empresarial de Miguel Milhão foi “alavancado por Bruxelas” e que algumas das suas empresas estavam em zonas francas e paraísos fiscais. A revista associou o seu nome a um relatório do Parlamento Europeu sobre os maiores beneficiários de fundos de coesão e política agrícola comum em cada Estado-membro.
Em outubro de 2025, o Jornal de Negócios, citando o Correio da Manhã e a lista de beneficiários publicada pelo Fisco, noticiou que o universo de empresas de Miguel Milhão ganhou 5,1 milhões de euros em benefícios fiscais em 2024, mais 3,3 milhões do que no ano anterior. A maior parcela, segundo a mesma notícia, terá resultado de incentivos sobre IRC, destacando-se a Prozis Tech, em Esposende, com 1,7 milhões de euros, e a Prozis Com, localizada na Zona Franca da Madeira, com 943 mil euros.
O Now noticiou igualmente que estavam em causa dez empresas de Miguel Milhão e que a maioria do valor resultou de benefícios sobre IRC, acrescentando que o empresário tinha recorrido em 2022 a fundos públicos como o Plano de Recuperação e Resiliência.
Este ponto tornou-se politicamente sensível porque chocava com declarações anteriores do empresário sobre não precisar de Portugal. A frase foi repetida em várias peças jornalísticas precisamente para sublinhar a tensão entre discurso público anti-dependência do Estado e utilização de instrumentos fiscais e fundos públicos disponíveis às empresas.
A “prenda de Natal” e a gestão de imagem
Outra polémica empresarial surgiu em 2025, quando o Jornal de Negócios noticiou que a Prozis ainda não tinha pago a prometida “prenda de Natal” de 1.300 euros aos cerca de 1.500 trabalhadores. O próprio Miguel Milhão assumiu ao jornal que os trabalhadores ainda não tinham recebido “um cêntimo”, culpando os jornalistas pelo incumprimento da promessa feita na festa de Natal da empresa e no LinkedIn.
O episódio teve leitura pública por envolver uma empresa frequentemente apresentada como símbolo de crescimento, exportação e cultura empresarial alternativa, mas também por reforçar a imagem de Milhão como gestor que transforma quase todas as controvérsias em confronto comunicacional.
O podcast CdK e a aproximação à direita política
A partir de 2023, Miguel Milhão consolidou presença mediática própria com o podcast CdK — Conversas do Karalho. O Jornal de Negócios escreveu que o espaço tinha cerca de 50 mil seguidores no YouTube em janeiro de 2024 e que por lá já tinham passado figuras como Carlos Guimarães Pinto, Joana Amaral Dias e Marco Galinha. Hoje já conta com mais de 112 mil seguidores.

O episódio com André Ventura, líder do Chega, tornou-se especialmente mediático. O Jornal de Negócios noticiou que Milhão apresentou Ventura como “o futuro primeiro-ministro de Portugal”, numa conversa de quase duas horas.

Em junho de 2025, a Sábado escreveu que Miguel Milhão estava a formar uma comunidade chamada “V Império” e a tentar legalizar um novo partido político com orientação libertária na economia e ultraconservadora nos valores, referindo ainda planos para uma fundação “pró-vida” e ambição de entrar no negócio dos media.
Também em 2025, o Now noticiou que Miguel Milhão convidou a deputada do Chega Rita Matias para integrar uma futura fundação de apoio a mulheres que escolham ter os filhos, com uma alegada doação de 20 milhões de euros.
Entrada nos media: 264 mil euros no ContraProva
Em janeiro de 2026, a entrada de Miguel Milhão no universo mediático passou do comentário à ação financeira. A Sábado noticiou que o fundador da Prozis investiu 264 mil euros no ContraProva, novo jornal digital dirigido por Pedro Almeida Vieira, também diretor do Página Um, com Frederico Duarte Carvalho como diretor editorial.
Segundo a mesma notícia, o investimento foi apresentado como forma de viabilizar a fase inicial do projeto durante dois anos. O contrato previa um pagamento inicial de 68.500 euros e o pagamento dos restantes 195 mil euros em mensalidades de 8.500 euros durante 23 meses. A Sábado acrescentou que o acordo prevê a possibilidade de conversão do investimento em capital social da Página Temerária, Lda., até ao limite de 49%.
O ContraProva apresenta-se como um projeto dedicado à análise crítica dos media portugueses, colocando notícias “à prova” e publicando veredictos sobre trabalhos de outros órgãos de comunicação social.
A Sábado assinalou ainda que, em 2020, a Prozis fez parte de um consórcio com Marco Galinha, do grupo Bel, e Gustavo Guimarães, representante em Portugal da Apollo, para comprar a TVI.
O retrato final: empresário, ativista, provocador e investidor de influência

Miguel Milhão é hoje uma figura difícil de arrumar numa única categoria. É o fundador de uma marca portuguesa de projeção internacional, mas também uma personalidade que utiliza o dinheiro, as redes sociais e a visibilidade da Prozis para entrar em debates morais, políticos e mediáticos.
Construiu a Prozis a partir de uma oportunidade real de mercado: suplementos caros, pouca oferta e comércio online ainda em expansão. Fez crescer o negócio com tecnologia, logística, produção própria e marketing de influência. Tornou-se um caso empresarial português com escala internacional.
Mas a partir de 2022, Milhão transformou-se noutra coisa: uma figura de confronto cultural. As suas posições sobre aborto, as frases provocatórias, os anúncios televisivos, o podcast, a aproximação a figuras da direita, as críticas ao Estado e a entrada no financiamento de media fizeram dele um ator político informal, mesmo sem cargo público.
Há, contudo, uma diferença importante entre polémica e ilegalidade. As fontes consultadas não indicam condenações judiciais de Miguel Milhão relacionadas com estas controvérsias. O que existe é um conjunto de factos públicos: negócios em crescimento, apoios e benefícios fiscais, investimento mediático, anúncios alvo de queixas, rupturas com influencers, ligação passada ao Vilaverdense FC e uma estratégia comunicacional que parece transformar cada choque público em combustível para a sua própria marca.
No fundo, Miguel Milhão deixou de vender apenas barras proteicas, roupa desportiva ou suplementos. Passou a vender também uma personagem: o empresário que diz não precisar do país, mas usa os seus instrumentos fiscais; o dono de marca que financia anúncios ideológicos; o homem da Prozis que entra nos media; o antigo discreto que passou a fazer da provocação uma forma de poder.
E é precisamente aí que está o interesse público da sua história: Miguel Milhão já não é só um empresário. É um caso de influência privada no espaço público português.