Gestor da Super Bock começa hoje a ser julgado por violência doméstica contra ex-mulher e filho
EXCLUSIVO VOX
O julgamento de Ezequiel José dos Santos Cabral, gestor da Super Bock Group atualmente a exercer funções em Paris, começa esta quarta-feira, 17 de Junho, no Tribunal Judicial da Comarca do Porto, estando prevista uma segunda sessão para quinta-feira.
O Ministério Público acusa o arguido da prática de dois crimes de violência doméstica agravada, um contra a então esposa, Ana (nome fictício), e outro contra o filho menor do casal, Mateus (nome fictício), que tinha 11 anos à data dos factos.
Segundo a acusação do DIAP Regional do Porto, a degradação da relação conjugal intensificou-se depois de Ana ter manifestado a intenção de terminar o casamento. O casal encontra-se atualmente divorciado, tendo o divórcio sido concluído em janeiro deste ano.
“És um monte de merda. Grande puta nojenta”
De acordo com o Ministério Público, entre julho e outubro de 2023, Ezequiel Cabral terá protagonizado um padrão continuado de violência psicológica, humilhação, controlo e intimidação sobre a então esposa, dirigindo-lhe, por vezes na presença dos filhos menores, expressões como: “Vou-te esmagar. Vais ficar sem nada e sem ninguém. És um monte de merda. Grande puta nojenta. Mentirosa, tens amantes. Não vales nada. És uma merda, puta, burra”.
A acusação descreve ainda um episódio em que o arguido terá levantado a mão à mulher com intenção de a agredir, acabando por não o fazer porque o filho mais novo, Mateus, agarrou o seu braço.
Noutro momento relatado nos autos, o Ministério Público sustenta que Ezequiel Cabral acordou a então esposa quando esta dormia no sofá da residência familiar, aproximando o rosto do dela e dizendo-lhe, em tom sério: “Ou é como eu quero ou tiro-te os meninos”, provocando-lhe medo e inquietação.
Segundo a acusação, o arguido enviou ainda fotografias de roupa interior utilizada pela mulher para o seu telemóvel, questionando-a se pretendia que as peças fossem lavadas com tira-nódoas, numa alegada insinuação de relacionamentos extraconjugais.
“Vacarrona nojenta, estiveste com o teu amante”
Num outro episódio descrito pelo Ministério Público, ocorrido em Outubro de 2023, Ezequiel Cabral terá seguido – durante o período laboral, e com a viatura de serviço da Super Bock – a então esposa até uma rua em Vila Nova de Gaia, onde esta se deslocara para resolver um problema informático, pois iria iniciar nesse mesmo dia formação para motorista TVDE via online. Quando a mulher entrou no automóvel, o arguido terá imobilizado o seu veículo e gritado: “Vacarrona nojenta, estiveste com o teu amante”.
Ainda segundo os autos, durante discussões relacionadas com dinheiro e utilização do automóvel familiar, terá afirmado: “És uma nojenta, só queres é dinheiro. Se não for assim andas a pé. Não queres assim, não tens gasolina. Deve ser para ires ter com os amantes”.
A acusação refere igualmente que, no final de Outubro de 2023, ao encontrar a mulher ao telefone, o arguido lhe terá dito: “Estás a falar com um dos teus amantes? Sua vacarrona, és um monte de merda, não vales nada. Vou-te tirar tudo. Vais acabar sozinha”.
Menor terá sido ainda apelidado pelo pai de “monte de merda”
Relativamente ao filho Mateus, o Ministério Público imputa ao arguido diversos episódios de agressões verbais e físicas. Entre eles, uma alegada bofetada durante férias em Espanha, no Verão de 2023, bem como um episódio em que o menor terá sido agarrado pelos colarinhos da roupa, levantado, abanado e puxado pelos cabelos, sofrendo dores e escoriações. O menor terá sido ainda apelidado pelo pai de “monte de merda”, segundo a acusação.
O Ministério Público conclui que o arguido atuou de forma livre e consciente com o propósito de intimidar, amedrontar e afetar a integridade física e psicológica das vítimas, imputando-lhe dois crimes de violência doméstica agravada. O processo inclui declarações para memória futura dos dois filhos do casal, prova testemunhal e relatórios periciais.
Ezequiel Cabral nega a prática dos factos que lhe são imputados, encontrando-se o caso agora em apreciação pelo tribunal.
“Fizeram-se passar por mim”: a denúncia que chegou à PSP
A tensão entre o casal terá continuado mesmo após a apresentação da denúncia por violência doméstica.
Documentos consultados pelo VOX mostram que, em Novembro de 2023, Ana comunicou à PSP de Vila Nova de Gaia que fora contactada pela operadora NOS depois de alguém ter solicitado o cancelamento do contrato de telecomunicações associado ao agregado familiar. Segundo o auto policial, a ofendida afirmou ter sido informada de que o pedido teria sido efetuado através de um número de telemóvel que identificou como pertencente ao então marido.
Num aditamento elaborado pela PSP, datado de 23 de Novembro de 2023, a mulher declarou ter ficado surpreendida por nunca ter solicitado qualquer alteração contratual, acrescentando que o contrato abrangia os serviços de televisão, internet e os telemóveis utilizados por si e pelos dois filhos.
Já numa reclamação apresentada à provedoria da NOS, em Dezembro de 2023, Ana alegou que alguém se fizera passar por ela junto da operadora para alterar a titularidade do contrato. Na mesma exposição, afirmou que os dois números de telemóvel associados aos filhos menores ficaram temporariamente sem possibilidade de efetuar chamadas, situação que, segundo relatou, a impediu de comunicar com os filhos.
A separação deixou Ana em situação de fragilidade económica
Num processo paralelo ao divórcio, a defesa de Ana sustentou junto do Tribunal de Família e Menores de Vila Nova de Gaia que a mulher ficou numa situação de elevada fragilidade económica após o fim do casamento. Num requerimento para atribuição provisória de alimentos e da casa de morada de família, é alegado que Ana dedicou cerca de 17 anos à gestão do agregado familiar e à criação dos filhos, abdicando da sua carreira profissional para permitir que o então marido se concentrasse em exclusivo na progressão profissional.
Segundo a mesma peça processual, essa opção familiar terá permitido a ascensão de Ezequiel Cabral na Super Bock Group, onde auferia, à data, um rendimento bruto anual superior a 53 mil euros. Os advogados de Ana defendem que o sucesso profissional do gestor resultou de uma estratégia familiar assumida pelo casal, na qual a então esposa assegurava integralmente as responsabilidades domésticas e parentais.
No requerimento, a defesa refere ainda que, após a separação, Ana passou a trabalhar como motorista TVDE, auferindo cerca de 920 euros brutos mensais, valor que, somado à pensão provisória de alimentos dos filhos, seria insuficiente para suportar as despesas do agregado familiar. Por essa razão, pediu ao tribunal a atribuição provisória de uma pensão de alimentos para si e a utilização exclusiva da casa de morada de família até à realização da partilha dos bens do casal.