Lobos atacam animais e há quase 400 prejuízos comunicados este ano

Quase 400 comunicações de prejuízos atribuídos ao lobo-ibérico já deram entrada, este ano, no Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, um número que se aproxima das 511 participações registadas em todo o ano de 2025. Os dados foram avançados esta manhã na Assembleia da República, durante uma audição dedicada à proteção da espécie e aos impactos da sua presença na atividade pecuária.

A audição, solicitada pelo PAN e pelo Chega, decorreu na Comissão de Agricultura e Pescas e teve como pano de fundo o Programa Alcateia 2025-2035, aprovado pelo Ministério do Ambiente e Energia. Em cima da mesa estiveram tanto as estratégias de conservação do lobo-ibérico como as dificuldades enfrentadas pelos produtores afetados por ataques ao gado.

O ICNF associou o aumento das comunicações à recente atualização dos valores das compensações, admitindo que muitos criadores que tinham deixado de reportar prejuízos poderão ter retomado esse procedimento. O instituto defendeu ainda que o Programa Alcateia foi construído com contributos das entidades envolvidas e que foram promovidas ações de divulgação junto dos potenciais interessados.

Ainda assim, os números abriram uma discussão mais ampla sobre a eficácia das respostas no terreno. A Rewilding Portugal defendeu a criação de uma linha telefónica dedicada no ICNF para produtores sem acesso a meios digitais, bem como a possibilidade de participação presencial através de juntas de freguesia, GNR ou serviços municipais. A associação sublinhou também a necessidade de melhor articulação entre plataformas como o IFAP e o SENIRA e de vistorias realizadas no próprio dia da comunicação dos prejuízos, lembrando que os valores indemnizatórios só foram atualizados em 2025, após oito anos sem revisão.

A dimensão da população de lobo-ibérico em Portugal foi outro dos pontos em debate. A Palombar alertou para o facto de a espécie apresentar uma população pequena, fragmentada e em regressão, com uma redução de cerca de 20% da área de presença nas últimas duas décadas. O efetivo nacional foi estimado entre 190 e 390 animais, com uma média aproximada de 290 lobos.

A mesma associação defendeu que a coexistência entre a espécie e a pecuária passa por equipas de proximidade nas zonas de conflito, apoio técnico às explorações, valorização da pastorícia tradicional, utilização de cães de proteção de gado e reforço das medidas de prevenção. Segundo a Palombar, quando corretamente aplicadas, estas medidas podem reduzir até 95% dos ataques.

Já o BIOPOLIS/CIBIO chamou a atenção para a importância de análises forenses e genéticas que permitam identificar com rigor a origem dos ataques. A investigadora Raquel Godinho alertou para a presença de cães errantes no território e para o risco de hibridação entre cão e lobo, defendendo uma monitorização sistemática que permita distinguir ataques provocados por lobos, cães ou híbridos.

Por sua vez, o Grupo Lobo apontou o furtivismo como uma das principais ameaças à conservação da espécie e defendeu a criação de equipas de intervenção rápida, a generalização de cães de proteção de gado, a implementação de dispositivos de dissuasão, a melhoria do habitat e a promoção de presas silvestres, como o corço. A associação admitiu o pagamento de prejuízos em caso de dúvida, mas rejeitou a criação de subsídios de risco generalizados, defendendo antes a valorização dos produtores que adotam medidas preventivas.

Da audição resultou um conjunto de prioridades consensuais: compensações mais céleres, menos burocracia, reforço de equipas no terreno, controlo de cães errantes, combate ao furtivismo, melhor monitorização científica e apoio direto aos produtores nas zonas de presença do lobo.

Em regiões como Trás-os-Montes, o Barroso e o Alto Tâmega, onde a pecuária extensiva continua a ter um peso económico e social relevante, a aplicação prática destas medidas será decisiva para garantir a compatibilização entre a conservação do lobo-ibérico e a sustentabilidade das explorações agrícolas.

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