Exame de Português copiado de manual? Ministério admite falha

O Ministério da Educação reconheceu esta quinta-feira a existência de uma “falha objetiva” na elaboração do exame nacional de Português do ensino secundário e pediu a abertura de uma inspeção para apurar se a situação comprometeu a igualdade entre os alunos.

Em causa está a inclusão, no exame realizado esta semana por cerca de 76 mil estudantes, de um item de desenvolvimento praticamente idêntico a uma pergunta publicada num caderno de exercícios de apoio da editora Leya. O caso gerou críticas no meio educativo e levantou dúvidas sobre eventuais vantagens para alunos que tiveram acesso prévio ao material.

Num comunicado divulgado após a polémica, o ministério admite que “a utilização da imagem em questão deveria ter sido evitada” pelo Instituto responsável pela prova. O ministro da Educação, Fernando Alexandre, solicitou à Inspeção-Geral da Educação e Ciência uma auditoria aos procedimentos internos do Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação, com especial enfoque na verificação prévia de itens já publicados por editoras.

Segundo a tutela, houve uma falha concreta na validação de conteúdos, razão pela qual foi também pedido ao EduQA um parecer técnico sobre os eventuais impactos da situação na equidade entre os alunos que realizaram a prova.

O ministério esclareceu ainda que, ao contrário do que tinha sido inicialmente indicado, o caderno de exercícios da Leya foi publicado em agosto de 2025, enquanto o exame foi elaborado apenas no início de 2026, afastando a hipótese de o manual ter sido produzido com base no enunciado da prova.

Nos últimos anos, o Grupo III do exame nacional de Português tem seguido uma estrutura semelhante, variando apenas o suporte de análise, que pode ser uma imagem, uma frase ou um texto. Este ano, o item pedia uma análise crítica a um cartoon do artista iraniano Takjoo, intitulado “Trabalho Infantil”, que retrata uma criança a costurar num cavalo de madeira. A mesma imagem tinha sido usada num manual de estudo, acompanhada de uma legenda diferente.

A situação motivou queixas de professores, que apontaram uma possível desigualdade entre alunos. Já a Associação de Professores de Português considerou tratar-se de uma “coincidência infeliz”, sublinhando que a autora do manual integra a direção da associação, mas não participa na elaboração nem auditoria de provas nacionais, nem teve acesso a informação privilegiada.

O Ministério da Educação garantiu que, após a conclusão do relatório da IGEC, do qual poderão constar propostas de medidas corretivas, serão retiradas “as devidas consequências”.

Queremos manter contacto consigo. Sem ruído. Sem filtros.

Receba no seu email as principais notícias, investigações e alertas do Semanário VOX. Prometemos não encher a sua caixa de correio com lixo digital. Para isso já há quem faça esse trabalho melhor do que nós.